A Transmissão da Revelação Divina
Parte II: A Sagrada Escritura
por Raphael Fracalossi
Baseado no Catecismo da Igreja Católica, discutimos neste quarto encontro o segundo dos meios segundo o qual Deus revela-se ao homem, a Sagrada Escritura
Por sua bondade, Deus utiliza-se de palavras humanas para revelar-se:
Com efeito, as palavras de Deus, expressas por línguas humanas, fizeram-se semelhantes à linguagem humana, tal como outrora o Verbo do Pai Eterno, havendo assumido a carne da fraqueza se fez semelhante aos homens. [Constituição dogmática Dei Verbum]
As Sagradas Escrituras expressam de maneira inerrante o Verbo divino. Lida por inteiro, a Bíblia conserva sua coesão e coerência, mesmo tendo sido escrita ao longo de vários anos e por diferentes pessoas.
“Lembrai-vos que é uma mesma a Palavra de Deus que está presente em todas as Escrituras, que é um mesmo Verbo que ressoa na boca de todos os escritores sagrados; ele que, sendo no início Deus junto de Deus, não tem necessidade de sílabas, por não estar submetido ao tempo.” [Santo Ambrósio]
O que distingue a Bíblia dos demais livros humanos é o fato de que ela é inteiramente inspirada por Deus. Este é um dogma judeu e Católico (na verdade, um dogma de todos os que são ditos cristãos).
Toda Escritura é divinamente inspirada. [2Tim 3,14]
Mas sabei, antes de tudo, que nenhuma profecia foi proferida pela vontade dos homens. Inspirados pelo Espírito Santo é que os homens falaram em nome de Deus. [2Pe 1,21]
Desta forma, vemos que Deus é o autor da Sagrada Escritura. Ele inspirou os santos homens que escreveram a mensagem de Deus. Estes, cuja vontade foi movida por Deus para escrever aquilo que Ele nos quis dizer, isto é, aqueles a quem ele inspirou, recebem o nome de hagiógrafos.
“Todavia a fé cristã não é uma ‘religião do livro’. O Cristianismo é a religião da ‘Palavra’ de Deus - não de uma palavra escrita e muda, mas do Verbo encarnado e vivo”. [São Bernardo, Homilia Super Missus Est 4,11 Pl 183, 86B]
Contudo, para que as Escrituras não permaneçam “letra morta”, é preciso que Cristo, pelo Espírito Santo, nos abra os espírito à compreensão das Escrituras, isto é, derrame sua graça para que nos orientemos no reto caminho.
Sendo a Bíblia autoria do próprio Deus, no Espírito Santo que orienta os hagiógrafos, é conseqüência o fato de que as Escrituras não contém erros e nem contradições. Além disso, Deus fala por ela aos homens a maneira dos homens. Estretanto, a linguagem pode ser de maneiras diferentes interpretada sendo portanto necessário estabelecer um padrão, uma norma para a interpretação. Alie-se a isso o fato de que as Escrituras foram redigidas por muito tempo, por pessoas de diferentes regiões, línguas, costumes e contextos sócio-políticos. Disso, pode-se ver que a interpretação dos livros sagrados não é trivial. Mesmo assim, esta interpretação deve ser única - já que a verdade de Deus é única - Portanto, a Tradição da Igreja, a outra fonte de revelação, é a autoridade única para interpretar as Escrituras. Baseado nisso, o Concílio Vaticano II indica três critérios que devem ser seguidos para se obter uma interpretação da Bíblia conforme o Espírito Santo:
1) “Considerar o conteúdo e a unidade da Escritura inteira”. As escrituras devem ser entendidas no seu todo pois são a revelação, os preceitos e a história a qual o povo de esteve e está submetido, tendo Jesus Cristo como centro.
“O coração de Cristo designa a Sagrada Escritura, que dá a conhecer o coração de Cristo. O coração estava fechado antes da Paixão, pois a Escritura era obscura. Mas a Escritura foi aberta após a Paixão, pois os que a partir daí têm a compreensão dela consideram e discernem de que maneira as profecias devem ser interpretadas.” [São Tomás de Aquino, Expositio in Psalmos]
2) Ler a Escritura dentro “da Tradição viva da Igreja inteira”. A Igreja leva em sua Tradição a memória viva da Palavra de Deus, e é o Espírito que lhe dá a interpretação espiritual da Escritura.
3) Deve-se estar atento à “analogia da fé”. Por “analogia da fé” entendemos a coesão das verdades da fé entre si e no projeto total da Revelação.
Àquele a quem é dada, sob autoridade da Igreja, a interpretação das Escrituras é chamado exegeta. Este deve estar atento aos sentidos possíveis dos textos bíblicos:
- Sentido literal: É o sentido significado pelas palavras da Escritura e descoberto pela exegese que segue as regras da correta interpretação. Todos os outros sentidos devem estar fundados neste.
- Sentido espiritual: As realidades e acontecimentos narrados na Escritura podem ser sinais, o que permite a seguinte subdivisão:
- sentido alegórico: alguns acontecimentos podem ser compreendidos de maneira mais profunda reconhecendo a significação deles em Cristo, por exemplo. Assim, a travessia do Mar Vermelho é um sinal da vitória de Cristo e também do Batismo;
- sentido moral: Os acontecimentos relatados na Escritura devem conduzir-nos a um justo agir. Eles foram escritos para nossa instrução;
- sentido anagógico: Podemos ver realidades e acontecimentos em sua significação eterna. Isto equivale a enxergar a história do homem como uma “entidade”. Estes acontecimentos nos conduzem à nossa pátria. A Igreja na Terra é a Jerusalém celeste.
- Sentido acomodatício: Consiste em dar às palavras da Sagrada Escritura um sentido diferente daquele que o autor lhes quis dar, devido a uma certa semelhança entre a passagem bíblica e a sua aplicação. Este sentido é muito usado na liturgia e na pregação. Temos um exemplo claro nas Missas de Nossa Senhora que aplicam a Maria os textos que se referem a sabedoria divina (Prov 8,22-35; Ecl 24, 14, 16). Por motivos óbvios, deve ser usado com muita cautela de modo que não se deve buscar sentidos ou significados onde não existem.
O canôn das Escrituras (a lista completa de livros inspirados) é constituído de 73 livros, 46 no Antigo Testamento e 27 no Novo Testamento.
O Antigo Testamento é composto pelos livros divinamente inspirados mas escritos antes da vinda do Messias. Com efeito é lá que esta vinda é prenunciada e o povo é exortado a se preparar para ela. É lá que é contada a trajetória do povo de Deus, desde a criação e queda até o centro da redenção, isto é, Cristo. Podemos dividir os livros do Antigo Testamento em categorias:
- Livros históricos: O Pentateuco (coleção dos cinco primeiros livros atribuídos pela tradição judaica a Moisés - Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio). Josué, Juízes, Rute, Primeiro e Segundo Livro de Samuel, Primeiro e Segundo Livro dos Reis, Crônicas, Esdras, Neemias, Tobias, Judite, Ester e Primeiro e Segundo Livros dos Macabeus;
- Livros didáticos: Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos (estes três últimos atribuídos ao rei Salomão), Sabedoria e Eclesiástico;
- Livros proféticos: A coleção dos profetas maiores (Isaías, Jeremias, Baruc, Ezequiel e Daniel) e a dos profetas menores (Oséias, Joel, Amós, Abdias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias e Malaquias).
O Novo Testamento é composto pelos livros inspirados escritos após a vinda do Messias e tendo a Ele, Cristo, como centro e expõe os elementos mais fundamentais do cristianismo. É dividido da seguinte forma:
- Livros históricos: Os quatro Evangelhos, onde nos é contada a vida de Jesus entre nós: São Mateus, São Marcos, São Lucas e São João. Consta como livro histórico também o livro dos Atos dos Apóstolos, escrito por São Lucas;
- Livros didáticos: Divididos em dois grupos: Cartas paulinas, devidas ao Apóstolo São Paulo e, em geral, dirigidas a comunidades específicas: Romanos, I Coríntios, II Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, I Tessalonissenses, II Tessalonissenses, I Timóteo, II Timóteo, Tito, Filêmon e Hebreus. Cartas Católicas: as quais têm abrangência universal mas também escritas a priori a uma comunidade ou pessoa em particular: Primeira e Segunda Epístula de São Pedro, Primeira, Segunda e Terceira Epístula de São João Evangelista, São Tiago e São Judas Tadeu.
- Livro profético: Apocalipse de São João.
A Igreja, já nos tempos apostólicos, e depois constantemente em sua Tradição, iluminou a unidade do plano divino nos dois testamentos graças à tipologia. Esta discerne nas obras de Deus contidas na Antiga Aliança (Antigo Testamento) prefigurações daquilo que Deus realizou na plenitude dos tempos, na pessoa de seu filho encarnado. Deste modo, há uma unidade inseparável entre o Antigo e o Novo Testamento.
As Escrituras devem ser lidas com intuito de edificar a fé. Leituras em busca de revelações pessoais (abrindo a Bíblia para ler algo como sendo um aviso pessoal de Deus à pessoa) é, conforme já vimos, pecado. A Igreja sempre aconselhou a leitura das Escrituras e sua veneração, conforme interpretação da Igreja, como maneira eficaz e fundamental para o crescimento na fé e a aproximação a Deus.
Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!