domingo, 27 de dezembro de 2009

Templos - Basílica de São Pedro

Bom, era de se esperar que o primeiro templo católico a ser lembrado fosse a Basílica de São Pedro.



Comecei, entretanto, pela Basílica de São João de Latrão pelos motivos que expliquei naquele post. Contudo, deve-se ressaltar que, em termos de fana, a Basílica de São Pedro deve ser o templo mais famoso do mundo. Em termos religiosos, a Basílica recebe as mais importantes celebrações litúrgicas da cidade de Roma presididas pelo Papa. Já há muito se tem na Igreja dedicada a São Pedro em Roma a sede do poder papal por ser este o sucessor de Pedro, o fundador da Igreja de Roma e que está sepultado sob a atual Basílica na colina do Vaticano. Portanto, este templo é a grande referência quando o assunto é papado. Além do túmulo de Pedro, lá estão os túmulos de diversos outros papas. Do ponto de vista artístico, a Basílica possui a maior cúpulq do mundo. Teve seu projeto inicial feito por Michelângelo mas este não chegou a contemplar a obra por ele idealizada pois morrera ainda muito distante do fim da construção. A obra tem várias esculturas fantásticas destacando-se a Pietá de Michelângelo, a imagem de São longuinho e o altar mor de Benine. Mais informações podem ser obtidas na Wikipedia:


http://pt.wikipedia.org/wiki/Bas%C3%ADlica_de_São_Pedro

Vale a pena procurar informações sobre esta obra incrível. Na minha opinião é a construção mais bela do planeta.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Apaixonados por Jesus (ai ai)

Vejam só o que flagrei escrito num automóvel aqui em Vix.


A foto não está muito nítida mas trasncrevo o que estava no vidro do carro:


"Tu és
o Deus da minha salvação,
és o meu dono, minha paixão,
minha canção e o meu louvor
                     apaixonados por Jesus"

É mole? Apaixonados por Jesus! Impressionante como não se tem Jesus como se tem a um Rei, mas como a um amiguinho ou um artista famoso. Sabem o que acho que acontece com essas pessoas? Querendo conciliar uma vida convencional, com gostos convencionais, com preferências pessoais e na impossibilidade de demonstrar gosto pela arte, pela beleza do mundo ou qualquer outra coisa por ignorância ou coação do meio social em que vive, fazem com que Deus - o único assunto sobre o que escutam e se interessam em geral de forma superficial pois se assim não fosse não teriam um adesivo desses - desça ao seu nível e aí, antes de amá-lo e adorá-lo como nosso Senhor (isto é, aquele a quem devemos todas as obrigações, todo respeito, a vida) são apaixonadas por ele. Aff...

Tratemos Jesus como Ele deve ser tratado... como nosso Senhor e não como um popstar. Isso banaliza a fé e a nós cristãos.

Missa do Galo

Sei que esta talvez não seja a atitude mais correta, mas resolvi postar durante a Missa do Galo que está sendo transmitida aqui pela Rede Globo. Curioso como a fé é algo particular e se manifesta de formas tão diversas. Digo isso porque toda vez que acompanho esta Missa em específico, me sou tomado por uma profunda necessidade de reflexão e entrega a Deus. Nela, sinto a catolicidade da Igreja, com o Papa, os Cardeais, Bispos, Bispos e Padres das Igrejas Orientais... ali, vejo que somos um único e grande povo, a Cristandade, vivendo juntos em nossa diversidade de culturas. O latim não é a língua que nos afasta, mas que nos une pois é o idioma principal da Santa Missa. Mesmo não sendo letrados nesta língua sagrada (sim, sagrada!) entendemos a Missa toda e até mais que em língua local pois a Liturgia nos leva, em razão e coração, a uma comunhão profunda com os demais que contemplam aqueles mistérios lá celebrados. Naquele momento, não me sinto mais sozinho. Estamos comemorando o nascimento de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, juntos. Não é o espaço para disputas políticas ou divisões de opiniões. Temos a regra. Temos o Papa. Temos a direção. Temos, agora sim, a Igreja...

Pra mim, Raphael, a boa saúde da Igreja é algo fundamental para a minha fé. É algo totalmente pessoal. Estou tanto mais próximo de Deus quanto mais entendo a Igreja, a catolicidade, como um verdadeiro sacramento que nos reune, nos transforma num exército que luta juntos e sem disputas internas, contra o mal e buscando a vida eterna. Anunciando a salvação que vem de Nosso Senhor Jesus, única verdade que a todos une, segundo a homilia do Papa Bento neste Natal.

A fé de muitos é oscilante. Acho que isso é normal em todos os seres-humanos. Eu, sobretudo, sou assim. E minha fé se reaquece com aquilo do que participei hoje. Fica uma dica, busquem aquilo que é responsável por manter sua fé, por vos sustentar em todos os momentos. Não nos esqueçamos de Deus nunca. Nem nas dificuldades, nem nas alegrias, pois ele está presente em todos os momentos como nosso  Pai. Estar do lado dele é nossa meta. A verdadeira grande meta! Todo o resto é ínfimo.

Que os absurdos litúrgicos dêem lugar às normas que nos levam cada vez mais pra junto de Deus. Comparem uma Missa celebrada com guitarras, baterias, vozes distorcidas com o que deveria ser seguido por todos e que pode ser conferido nas Missas solenes celebradas pelo Papa. Há muitos vídeos no youtube mas recomendo uma busca por Missa do Galo, em particular.

O sermão do papa nesta Missa em particular tratou, como é habitual em seu pontificado, dos males da individualidade, da busca por Deus por parte de todos, desde os sábios até os simples e humildes. Tratou naturalmente da distância cada vez maior entre o homem moderno e o menino que foi colocado na manjedoura. Fica a mensagem mais profunda: vejamos os sinais que o Senhor adequa a cada um para que possamos ir até Belém e ficar ao lado daquele Deus que veio ao nosso encontro. Sozinhos não podemos chegar até Ele, mas Deus nos chama: "Vinde e vede. eu estou aqui".  Rumemos a Deus, seja pela Liturgia da Igreja, que me aquece a fé, pelo ensino, pelo estudo da teologia, pela pobreza, pela ajuda ao próximo, pela penitência, pelo desapego ao mundo. Sejamos cristãos antes de tudo! Jesus Cristo é o Senhor!

Feliz natal a todos!

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Templos - Basílica de São João de Latrão

Inicio mais uma seção no blog: Templos. Aqui, trarei alguns dos mais importantes e belos templos católicos com um pouco de sua história ou características. Como primeiro, decidi pela Basílica de São João de Latrão.

Esta igreja é talvez a mãe de todos os templos católicos pois, apesar de não ser o mais antigo, foi fundada pelo primeiro imperador romano cristão, Constantino. O Papa Silvestre I presidiu em 324 a dedicação da Basílica e a chamou Archibasilica Sanctissimi Salvatoris (Arquibasílica do Santíssimo Salvador), ou seja, apenas anos mais tarde é que o templo passou a ser dedicado também ao apóstulo São João Evangelista. Já no século 4, o Papa Silvestre I instalou  ali a sua Cátedra. Esta igreja é, portanto, a sede da Arquidiocese de Roma e por consequência, a igreja presidida pelo Papa, posição em geral atribuída à Basílica de São Pedro. Na verdade, o Papa possui sua cátedra nestas duas e em mais duas igrejas romanas, uma dedicada a São Paulo e outra a Maria Santíssima. Por ser construída tendo por base o palácio dos Lateranos de muitos anos atrás, a igreja possui arquitetura clássica ao estilo romano.

Muitas informações a respeito da Basílica podem ser encontradas, como de costume, na Wikipedia neste link:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Bas%C3%ADlica_de_São_João_de_Latrão



Pra terminar, lembro que a Consagração da Basílica de São João do Latrão é uma data que consta no calendário litúrgico (XXXII domingo do tempo comum), o que expressa a importância deste templo.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Doutores da Igreja - Santo Ambrósio

Já discutimos a existência do título Doutor da Igreja. Dentre os detentores deste título, existem alguns, mais antigos, que são de tamanha grandeza e importância para o cristianismo em seus séculos iniciais que são tidos como os "Doutores Máximos da Igreja". São oito, quatro no oriente (São Basílio, São Gregório Nazianzeno, São João Crisóstomo e Santo Atanásio) e quatro no ocidente (São Jerônimo, Santo Agostinho, São Gregório Magno e Santo Ambrósio). É o dia deste último que se comemora hoje.







7 de Dezembro
Santo Ambrósio,
Bispo, Confessor e Doutor da Igreja
(+ Milão, 397)

Era funcionário do Império e governava o norte da Itália quando os fiéis da diocese de Milão, inspirados por Deus, o aclamaram seu bispo. Àquela altura, Ambrósio era apenas catecúmeno e ainda não havia recebido o batismo. Mas foram tão claros os sinais de que era a voz de Deus que naquele momento falava pela boca dos populares que, depois de alguma hesitação, Ambrósio aceitou. Foi batizado, ordenado sacerdote e sagrado bispo. Tomando inteiramente a sério as novas responsabilidades, colocou sua imensa cultura e sua invulgar capacidade administrativa ao inteiro serviço da Igreja. Combateu heresias, favoreceu e defendeu a virgindade consagrada a Deus, empenhou-se tenazmente para extirpar os restos de paganismo do Império. Não hesitou em enfrentar o imperador Teodósio, impondo a ele uma penitência pública porque se portara mal. Deixou numerosos escritos de alto valor intelectual, e teve papel eminente na conversão de Santo Agostinho. 



Só pelo fato de ter sido uma das figuras mais importantes na conversão e formação cristã de Santo Agostinho, Ambrósio já teria grandes motivos para ocupar altas posições nos altares. Mas este foi apenas um de seus grandes feitos que incluem escritos de tão grande valor teológico e atualidade que foram usados por diversas vezes pelos Papas do século XX, como Pio XII e Paulo VI. Foi muito citado também no texto do Concílio Vaticano II. Seus escritos sobre virgindade, caridade, ministério dentro da Igreja e, sobretudo, acerca das Sagradas Escrituras são referências inigualadas mesmo depois de mais de 1500 anos.


Santo Ambrósio foi aclamado Bispo pelos fiés de Milão na ocasião em que foi se certificar como se daria a sucessão do Bispo daquela diocese que acabara de morrer, Bispo este que era defensor da heresia ariana. Isso levou Ambrósio a reformar administrativamente a Igreja de Milão e reavivou o cristianismo verdadeiro em sua igreja. É considerado o introdutor da hinologia na Igreja ocidental. Ainda, mesmo não sendo teólogo contribuiu decisivamente nos dogmas finais ligados à Trindade no que diz respeito à relação do Espírito Santo com o Pai e o Filho e das duas naturezas perfeitas de Jesus.


Enfim, muito poderia ser dito sobre Ambrósio e sua contribuição para o cristianismo e a filosofia. Deixo um link com uma pequena mas boa introdução sobre ele que encontrei na Wikipedia: 


http://pt.wikipedia.org/wiki/Ambrósio_de_Milão


Viva a todos os Santos!

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Doutores da Igreja - São João Damasceno

Conforme tinha dito aqui no blog na semana retrasada, vou sempre postar a vida dos Santos que recebem o título de doutores da Igreja. Hoje, 4 de dezembro é dia de São João Damasceno:


4 de Dezembro
São João Damasceno,
Confessor e Doutor da Igreja (+ Síria, 749)

Nascido na Síria, gozava de uma situação estável e prestigiosa no mundo, pois era prefeito de Damasco e homem de confiança do califa. Por amor a Jesus Cristo renunciou a tudo, distribuiu aos pobres sua fortuna e ingressou no convento de São Sabas, perto de Jerusalém. Combateu a heresia iconoclasta, que pregava a destruição das imagens religiosas, escrevendo três livros para refutá-la. Escreveu também um tratado famoso, sobre a fé e a ortodoxia dos Padres gregos. Éconsiderado o último dos grandes Padres da Igreja do Oriente. Morreu quase centenário, depois de uma vida cheia de méritos e bons exemplos. 



São João Damasceno foi o maior teólogo de seu século. Escreveu um dos primeiros livros de teologia sistemática (ou teologia dogmática) chamado Exposição da Fé Ortodoxa. Só pra pontuar, a teologia sistemática é a parte da teologia que se preocupa com a sistematização do cristianismo através de uma construção lógica definindo precisamente os pressupostos, os dogmas e a partir daí obtendo as conclusão acerca de questões fundamentais para a fé. É o método mais rigoroso para se construir e estudara doutrina e, por esta razão, é o mais complicado. Pra se ter uma idéia, lendo a Suma Teológica de São Tomás de Aquino se tem a sensação de que se está lendo um livro  de análise matemática com suas definições, teoremas e provas. A Exposição da Fé Ortodoxa do São João Damasceno eu não conheço mas vou tentar achar por aí pra comentá-lo aqui.


As imagens aqui são exemplos de sua iconografia que raramente o representa através de imagens esculpidas, conforme ocorre na Ortodoxia oriental.


Viva a todos os Santos!

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Música Sacra e Liturgia

Olá. Estou de volta depois de um pequeno período afastado do blog por uma série de razões. Esta semana vou postar em número razoável, ao contrário da semana passada. Para começar, gostaria de escrever hoje um pouco de minhas impressões acerca da música sacra e, por conseqüência, da Liturgia nas Igrejas brasileiras.

Bom, quem me conhece sabe que tenho uma posição dita um pouco rígida a este respeito pois creio que se deva ter pela Liturgia um cuidado doutrinal dos maiores possíveis por parte de quem se envolve com ela. Dentro desta perspectiva, aceito certas manifestações locais desde que sem o exageiro característico de nossos dias. Em particular, me volto sobretudo para a música sacra. A Igreja ao longo de sua história tem se preocupado de maneira bastante particular com o tipo de música usada na celebração Litúrgica. Por esta razão, já Santo Agostinho nos primeiros séculos da cristandade escreveu mais de uma vez em seus muitos livros sobre a importância da música durante o Santo Sacrifício da Missa mencionando inclusive os efeitos que as canções possuíam sobre ele e de que forma eram capazes de elevar sua fé. Naturalmente, eu podia citar dezenas de santos e Papas que deste assunto trataram, mas deixo um link de dois documentos do Santo Padre Papa Pio XII (foto ao lado). Este Papa do século XX é um dos mais injustiçados da nossa história recente por ser frequentemente acusado de omisso com respeito à questão da perseguição sofrida pelos judeus na segunda grande guerra. Bom, não vou entrar no mérito da questão mas um dia trataremos disso conforme se deve (vale só dizer que o considero junto com João Paulo II o maior Papa do século XX e que estas acusações são injustas). Aí vão duas Encíclicas de Pio XII, a Mediator Dei e a Musicae sacrae disciplina (os links direcionam diretamente para a seção do site da Santa Sé que hospeda estes documentos):

http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_20111947_mediator-dei_po.html

http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_p-xii_enc_25121955_musicae-sacrae_po.html

Mas aí vão alguns pontos de vista - que muitos diriam pessoais mas que eu chamaria conformes às doutrinas da Igreja. Creio firmemente que a música sacra deva ser instrumento para louvar a Deus, elevar os espíritos dos fiés participantes ao Criador fazendo com que esta mesma música transmita ao menos de maneira ínfima mas correta as grandezas de Deus, e demarcar a sacralidade do lugar e do que é feito no altar. Vejam que, em nenhum momento se diz que a música é para proveito pessoal de modo a tornar o participante feliz ou emotivo. Isso é óbvio pois Deus não é paixão mas razão, amor. Deste modo, é de se esperar que pessoas chorando porque ouviram uma canção com letras ingênuas e ritmo descuidado, em geral, não têm seus espíritos elevados a Deus mas ao invés disso, são pessoas que permitem que a paixão sobrepuje a razão, o que é errado. Ainda, como as músicas devem exprimir a Deus, estas devem ter compasso adequado que mostrem a pequenez do homem e a grandeza da Trindade, que se adequem aos momentos de alegria e tristeza na celebração sempre mantendo o seu decoro. Portanto, instrumentos que soem distorcidos, como guitarras e baixos elétricos ou em alguns casos mesmo violões, instrumentos de percurssão (que tem na inconstância e na mutabilidade a sua marca registrada) não são instrumentos adequados quando usados como principais. Deste ponto de vista, creio que guitarras, baixo e bateria são abusos litúrgicos inqualificáveis numa Santa Missa. Podem ver! em geral quem participa da Liturgia tocando estes instrumentos recebe permissão para que ele (quem toca) se sinta importante e fazendo um bem enquanto se esquece que, naquele momento, é Deus quem deve estar sendo ao menos minimamente representado e sumamente louvado e adorado com o decoro e repeito devido a ele. Frases como "apaixonado por Jesus" e "Jesus é 10!" devem ser banidas das Missas. Acerca dos instrumentos adequados, conforme nos ensinam os Santos Padres devem figurar os órgãos e instrumentos de corda como violino, viola (a de concerto que parece um violino) dentre outros. Notem que outros instrumentos, mesmo os de percursão podem ser utilizados desde que como um acessório aos principais e unicamente para louvar a Deus e não para fazer com que um jovem rebelde não saia da Igreja (o que gera as malditas baterias nas Missas). Infelizmente movimentos como a Renovação Católica Carismática (RCC) não possuem a devida preocupação com estas questões e espalham um modismo de "católicos" apaixonados e pentencostalizados como, muitas vezes, nas piores seitas que povoam nosso país. Não vejo tanto problema em se expressarem da forma como o fazem mas nas Missas é sim inadequado.

Muito pode ser dito sobre a arte de maneita geral. Mesmo aquela que não exprime Deus de maneira objetiva pode fazê-lo de maneira subjetiva. As Ninféias de Monet, a Mona Lisa de Da Vinci, dentre várias outras obras são a expressão das capacidades do gênero humano na sua forma mais imponente, humanidade criada à imagem e semelhança de Deus, mas sobre isso falaremos num outro momento.

Ah, só pra completar, gosto de muitos tipos de música que utilizam bateria e guitarra. Só acho (tenho certeza) de que nas Missas devemos nos preocupar com o que é apropriado para louvar a Deus e não para nos satisfazermos pessoalmente. A Missa é nosso oferecimento para Deus e não para nós mesmos. Colhemos dela aquilo que Deus, agradado com nosso oferecimento, se digna a nos dar. Deus misericordioso que nos dá a vida, o perdão e a Salvação.

domingo, 22 de novembro de 2009

CATEQUESE

A Transmissão da Revelação Divina 
Parte I: A Tradição Apostólica
por Raphael Fracalossi

Neste terceiro encontro procuraremos compreender o papel da Tradição Apostólica na transmissão da Revelação Divina. Como de costume, o texto básico é o Catecismo da Igreja Católica.



Conforme vimos, Deus quer fazer-se conhecer à humanidade para que esta o adore e seja plena Nele. Conhecer a Deus ou ter acesso à sua palavra é estar diante da verdade plena e imutável pois o próprio Deus é pleno na perfeição e imutável em si mesmo. Portanto, sendo Deus perfeito e imutável, espera-se que o mundo deva receber sua revelação também de forma plena e imutável. Está explícito como uma “qualidade” da perfeição de que esta se faça conhecer de forma legítima e sem ambiguidade. Portanto, deve haver apenas uma única revelação em conteúdo - Deus não pode revelar-se diferente em si a pessoas diferentes. Vimos já os diversos estágios em que esta revelação se deu até sua plenitude em Jesus Cristo. Veremos agora os métodos em que esta relação nos é comunicada: as Sagradas Escrituras e a Tradição Apostólica, sobre a qual nos debruçaremos hoje.


Deus dispôs com suma benignidade que aquelas coisas que revelara para a salvação de todos os povos permanecessem sempre íntegras e fossem transmitidas a todas as gerações.  [Constituição dogmática Dei Verbum]


Cristo Senhor, em quem se consuma toda revelação do Sumo Deus, ordenou aos apóstulos que o Evangelho, prometido antes pelos profetas, completado por ele e por sua própria boca promulgado, fosse por eles pregada a todos os homens como fonte de toda verdade salvítica e de toda disciplina de costumes, comunicando-lhes os dons divinos.  [Constituição dogmática Dei Verbum]


A transmissão do Evangelho se deu de maneira oral, pela pregação dos apóstulos que receberam os ensinamentos diretamente de Cristo ou aprenderam das sugestões do Espírito Santo, muitas coisas das quais registraram por escrito.

Para que o Evangelho e os ensinamentos permanecessem inalterados, os apóstulos deixaram como seus sucessores os Bispos. Esta sucessão deve manter-se viva até o fim dos tempos.


a Igreja, em sua doutrina, vida e culto, perpetua e transmite a todas as gerações  tudo o que ela é, tudo o que crê.  [Constituição dogmática Dei Verbum]



O ensinamento dos Santos Padres testemunha a presença vivificante desta tradição, cujas riquezas se transfundem na praxe e na vida da Igreja crente e orante.  [Constituição Dogmáti ca Dei Verbum]


Portanto a Igreja é a fiel trasmissora da mensagem divina ao homem, continuamente inspirada pelo Espírito Santo e, por este motivo, isenta de erro em matéria de fé e moral.

Note que, por terem a mesma fonte segura, a Tradição Apostólica e as Escrituras estão estreitamente unidas. Isso é tanto mais visível quando se observa que quem compilou o atual canôn das Escrituras e a traduziu inicialmente para o grego e o latin foi a Igreja com a autoridade dada por Cristo, com constante auxílio do Espírito Santo. Disso, se não há a Tradição Apostólica conferida pelo próprio Deus em Cristo, não é possível afirmar serem as Sagradas Escrituras uma fonte segura, isenta de erros.

A Sagrada Tradição transmite integralmente aos sucessores dos apóstulos a palavra de Deus confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos apóstulos para que, sob a luz do Espírito de verdade, eles, por sua pregação, fielmente a conservem, exponham e difundam.

Portanto, as certezas da Igreja derivam da Tradição e das Escrituras de modo que ambas devem ser igualmente veneradas. Em vista disso, qualquer outra tradição, dita eclesial local deve estar conforme à Tradição Apostólica, sob o guia do Magistério da Igreja.

O depósito da fé (depositum fidei) contido nas Escrituras e na Tradição é confiado à totalidade dos fiéis. Então, Bispos, Cardeais, fiéis leigos, Diáconos, etc. professam a mesma fé. Entretanto, o Magistério da Igreja é o único autorizado a interpretar as Escrituras. Afinal, como Deus é único e sua Revelação também é única, o anúncio deve também ser único e a partir de uma autoridade. Esta foi divinamente dada à Igreja por Cristo sobre Pedro, príncipe dos Apóstolos, Bispo de Roma, que transmitiu seu legado a seus secessores.


Bem aventurado és Simão Barjona, porque não foi a carne e o sangue que a ti revelou, mas sim meu Pai que está no céus, e eu digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão sobre ela. E eu te darei as chaves do reino dos céus, e tudo que ligares na terra será ligado também nos céus. [Mt XVI, 16-19s]


A assistência constante do Espírito Santo e a promessa de Cristo de que permanece com os seus “todos os dias até a consumação dos séculos” [Mt XXVIII, 20] garante a inerrância da Igreja em sua doutrina. A autoridade da Igreja se manifesta tanto mais fortemente na definição dos dogmas. Estes são verdades de fé, anúncio de verdades contidas na Revelação ou em conexão íntima com esta verdade. São princípios que devem ser obrigatoriamente aceitos pelos fiéis e guias no caminho que leva a Deus. São exemplos de dogmas a Santíssima Trindade, a Imaculada Conceição de Maria, a Infalibilidade Papal, entre outros.

Sob uma perspectiva não-transcedental, a Igreja é o conjunto do povo de Deus. Este povo professa uma única fé e deve anunciá-la sempre desde o pequenino fiel leigo até a mais alta autoridade eclesiástica mas sempre em concordância com a Tradição Apostólica, com as Escrituras e enfim, com o Magistério da Igreja.


Fica, portanto, claro que segundo o sapientíssimo plano divino, a Sagrada Tradição, a Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja estão de tal modo entrelaçados e unidos que um  não tem consciência  sem os outros, e que juntos, cada qual a seu modo, sob ação do mesmo Espírito Santo, contribuem eficazmente para a salvação das almas. [Constituição Dogmática Dei Verbum]



Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Gárgulas

Muitos devem se indagar se os templos católicos, em sua arquitetura, carregam significados, isto é, se a consrtução em si, sua concepção, tem por intenção, além do óbvio que é prestar culto a Deus, transmitir alguma mensagem. A resposta é sim. Vários aspectos externos e internos relacionado à escolhas arquitetônicas são pensados visando transmitir alguma mensagem. Vou abordar especificamente um hoje. Os gárgulas.

A figura ilustra bem o que são estas criaturas. Na verdade, gárgula é a denominação de uma criatura em particular. Nas fachadas encontramos além deles, as quimeras, figuras de animais e de pessoas, às vezes meio homens, meio qualquer coisa, em geral com aspecto horripilante. E a intenção é essa mesma! Gerar espanto em quem olha. Muitos absurdos já li a respeito do porquê de nas Igrejas, especialmente na fachada das européias e de estilo gótico, estas esculturas estarem. Na realidade, existem três razões para isso. Era preciso por uma questão de engenharia, que as Igrejas possuíssem canos ou dutos para escoamento da água que caía sobre os telhados. Naturalmente, um cano na fachada de uma construção seria um arrombo estético considerável. Como pegava mal fazer canos saindo pela boca de imagens de santos (ou de outras partes quaisquer) achou-se melhor utilizar de figuras que representassem o oposto destes. Figuras  a que poderia-se submeter ter água e sujeira saindo delas. Isso se adequou muito bem com outra das razões: o estilo gótico é imponente e, de certo modo sombrio. Desta forma casava bem com as fachadas deste estilo arquitetônico figuras assustadoras. Isso cabe bem ainda com a terceira razão, a teológica. A princípio, essas figuras ficavam no exterior da Igreja para representar as perversidades e terrores existentes no mundo e sua incapacidade de entrar na Igreja e lá ganharem lugar de destaque. Existem casos extremos, como por exemplo na Igreja de Notre Dame du Bon Espoir na cidade francesa de Dijon, onde morei, em que na porta, olhando para o interior era esculpida a cabeça do diabo. Ele olhava na direção do altar com olhar aterrorizante mas incapaz de entrar no ambiente sagrado do templo. O estilo acabou fazendo destas figuras parte da decoração, parte da arte.

Bom, espero que tenham gostado da curiosidade. Infelizmente no Brasil temos um número bem reduido de Igrejas em estilo gótico quando comparado com a Europa (aqui as Igrejas antigas têm sobretudo o estilo barroco, sobre o qual falarei em outra ocasião). Mas, o importante mesmo é que os templos sejam lugares em que se transmita a paz e a esperança que esperamos em Deus.

obs.: A primeira das figuras é de um dos muitos gárgulas da Catedral de Notre Dame em Paris. A segunda é a fachada da Catedral de Notre Dame de Dijon, também na França.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Doutores da Igreja - Santo Alberto Magno

Com algum atraso, gostaria de postar alguns aspectos da vida de Santo Alberto Magno (dois exemplos de sua iconografia abaixo) aquele que, dentre outras atribuições digníssimas, foi professor de Santo Tomás de Aquino, um dos maiores filósofos de todos os tempos:


15 de novembro
Santo Alberto Magno,
Bispo e Doutor da Igreja
(+ Colônia, Alemanha, 1280)

Foi sem dúvida um dos maiores sábios de todos os tempos. Não apenas dominava como Mestre a Filosofia e a Teologia (matérias em que teve como discípulo a São Tomás de Aquino) mas estendia seu saber às ciências naturais. Foi físico e químico, estudou astronomia, meteorologia, mineralogia, zoologia, botânica, escreveu livros sobre tecelagem, navegação,agricultura. Tão assombroso acúmulo de ciência não o impediu de ser um dominicano, piedoso e observante. Nomeado bispo de Regensburg, mostrou-se pastor zeloso e exemplar, mas logo que pôde pediu e obteve dispensa das funções episcopais e retornou a sua cela de monge humilde e sábio. Foi chamado "o Doutor Universal". 



Vejam que esta denominação "doutor da Igreja" é atribuída aos veneráveis Santos e veneráveis Santas que possuem escritos de considerável valor teológico. Além disso, figuram alguns nomes cujas experiências místicas também exerceram grande influência em suas vidas. Em geral, todos são responsáveis por contribuições determinantes para as sociedades de seus tempos e para explicitar e sistematizar de maneira definitiva a Revelação Divina. O número daqueles que recebem este título é bem pequeno e dentre eles podemos citar além de Santo Alberto Magno e de Santo Tomás de Aquino, a Santo Agostinho, Santa Terezinha de Lisieux, Santa Catarina de Sena, São Gregório Nazianzeno, São Gregório Magno dentre outros...


Existem outros Santos cuja envergadura é inegável por sua contribuição teológico-filosófica e que viveram no princípio do Cristianismo. Estes, também doutores da Igreja recebem o título, reconhecido mesmo fora do catolicismo como no protestantismo, de "Padres da Igreja" (daí porque o nome do estudo dos escritos destes é chamado de Patrística) mas a respeito deles falarei em outra ocasião. 


A vida dos Santos devem nos servir de exemplo a fim de nos fortalecer na fé e na boa conduta. Cremos na doutrina da Comunhão dos Santos que nos coloca em contato com todos os nossos irmãos e sobretudo com aqueles que estão junto de Deus e rogam por nós. 


Viva a Todos os Santos!

domingo, 15 de novembro de 2009

Documentos Papais

O post de hoje é mais uma dica:

http://www.vatican.va/phome_po.htm

Este é o endereço da página do Vaticano em português. Lá há de tudo, desde visitas virtuais pelo patrimômio artístico do país (e de fora da Santa Sé) até partes dos Arquivos Secretos. Em particular, envio um link chamado arquivo dos Papas onde, como o nome diz, pode-se obter todos os documentos (nem todos em português) dos Papas desde Leão XIII:

http://www.vatican.va/holy_father/index_po.htm

Segue ainda o link, uma segestão, da Encíclia do Papa Bento XVI "Deus caritas est:

http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20051225_deus-caritas-est_po.html

Fucem bastante no site do Vaticano. Há coisas realmente magníficas lá.





O Romano Pontífice, como sucessor de Pedro, é o perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade quer dos Bispos quer da multidão dos fiéis. 
LUMEN GENTIUM, 23

sábado, 14 de novembro de 2009

CATEQUESE


DEUS VEM AO ENCONTRO DO HOMEM
por Raphael Fracalossi

Neste segundo encontro vamos discutir a existência de Deus a partir da Revelação, isto é, da apresentação dele por Sua própria vontade à humanidade. O Catecismo da Igreja Católica é o texto no qual me baseei.



O homem é capaz de intuir a existência de Deus a partir das coisas criadas utilizando sua razão, seu poder de questionamento. Entretanto, a existência de Deus pode ser conhecida a partir de outra ordem, a qual o ser-humano não é capaz de atingir por suas próprias forças: a Revelação divina. Chama-se pois Revelação à decisão completamente livre de Deus de dar-se a conhecer ao homem revelando-se e aos seus mistérios os quais concebeu desde a eternidade em seu Verbo, Jesus Cristo.


Aprouve a Deus, em sua bondade e sabedoria, revelar-se a si mesmo e tornar conhecido o mistério de Sua vontade, pela qual os homens, por intermédio de Cristo, Verbo feito carne, no Espírito Santo, têm acesso ao Pai e se tornam participantes da natureza divina. [Constituição dogmática Dei Verbum]


Deus revela-se aos homens para torná-los capazes de responder ao Seu chamado, de conhecê-Lo e de amá-Lo muito além do que o ser-humano poderia fazê-lo por si próprio. Em Cristo, Deus nos comunica sua divindade fazendo de nós, desse modo, seus filhos adotivos.

A Revelação é comunicada ao homem através da caminhada deste na história.  A plenitude é atingida na pessoa e na missão do seu Verbo, Cristo. Podemos, esquematicamente, distribuir a revelação em etapas determinadas por marcantes acontecimentos na relação do homem com Deus:

  1. A criação:


Criando pelo Verbo o universo e conservando-o, Deus proporciona aos homens, nas coisas criadas, um permanente testemunho de si e, além disso, no intuito de abrir caminho de uma salvação superior, manifestou-se a si mesmo, desde os primórdios, a nossos primeiros pais.  [Constituição dogmática Dei Verbum]


O ser-humano foi convidado por Deus a uma união íntima com Ele. Esta comunhão é desviada pelo pecado original cometido pelo homem. Deus, em seu amor perfeito pelo homem, deseja que este o ame livremente e por esta razão concede-lhe o livre arbítrio. Por si mesmo o homem opta, tentado pelo Diabo, por afastar-se de Deus aproximando-se do mal, cometendo o que assim chamamos de pecado original. Esta desobediência afeta todo o gênero humano e a partir dela o homem se vê envolto no mal e pratica-o. Contudo, esta primeira queda não faz com que a Revelação seja interrompida. Deus promete enviar  à humanidade a “fonte” da redenção e todos aqueles que seguem perseverantes na prática do bem encontram a vida eterna.


E quando pela desobediência perderam vossa amizade, não os abandonastes ao poder da morte. (...) Oferecestes muitas vezes aliança aos homens e às mulheres [Oração Eucarística  IV]


Nas etapas seguintes a Revelação vem a reboque de uma aliança cósmica, isto é, um pacto entre Deus e o homem. A plenitude da Revelação ocorre portanto junto à nova e definitiva aliança em Cristo.

  1. A aliança com Noé

Esta aliança está ligada às leis da natureza


A seguir, Deus disse a Noé e a seus filhos: “Vou estabelecer uma aliança convosco, com a vossa descendência e com os animais e demais seres vivos que os rodeiam: as aves, os animais domésticos, todos os animais selvagens que estão convosco, todos aqueles que saíram da arca. Estabeleço convosco esta aliança: não mais criatura alguma será exterminada pela água do dilúvio e não haverá jamais outro dilúvio para destruir a terra” [Gn 9, 8-11]


A maldade do homem e seu afastamento de Deus tornaram-se tão grandes que a própria ordem cósmica da criação estava perdida. Deus lança então um grande castigo visando renovar o gênero humano. Este castigo é o dilúvio, a princípio uma lenda de alguns dos povos daquele tempo, como mesopotâmios e babilônios, e narrada biblicamente sob o gênero literário da epopéia. De fato, por constar em registros históricos de diferentes culturas, é de se crer que tenha havido um evento ligado a chuvas e inundações que castigou boa parte do mundo antigo. O relato, embora figurativo é carregado de uma grande mensagem teológica:

> Deus não suporta a iniquidade mas a sua misericórdia está sempre presente de tal modo que, após a destruição há um resto, um gérmen de salvação representado aqui por Noé;

> O dilúvio marca, na perspectiva bíblica, o fim do mundo antigo pela água. O mundo atual, também corrompido, o será pelo fogo (2Pe 2,5; 2Pe 3,5-12; Mt 24,17ss; Lc 17,27);

> O dilúvio, lavando o mundo de seus crimes e fazendo nascer da água um mundo novo, é figura do Batismo que nos salva.

áqueles que outrora, nos dias de Noé, tinham sido rebeldes, quando Deus aguardava com paciência, enquanto se construía a arca, na qual poucas pessoas, oito apenas, se salvaram sobre a água. Esta água era uma figura do batismo, que agora vos salva, não pela purificação das impurezas da carne, mas justificando a consciência para com Deus, pela ressurreição de Jesus Cristo. [1Pe 3, 20-21]

A aliança com Noé também está ligada à Economia divina para com as “nações”, isto é, para com os homens agrupados segundo seus países, cada um segundo sua língua e segundo seus clãs.


Deles nasceram os povos que se dispersaram por diversos países, cada um segundo sua língua, segundo as respectivas famílias e nações. [Gn 10,5]


Esta ordem ao mesmo tempo cósmica, social e religiosa da pluralidade das nações destina-se a limitar o orgulho de uma humanidade decaída que, unânime em sua perversidade, gostaria de construir por si mesma sua unidade à maneira de Babel. Contudo, devido ao pecado, o politeísmo, assim como a idolatria da nação e de seu chefe, constitui uma contínua ameaça de perversão pagã para essa Economia provisória.

  1. A aliança com Abraão

A aliança com Abraão trata da descendência e da constituição da nação de Deus. Este povo será o depositário das promessas feitas aos patriarcas que prepara a constituição da unidade dos filhos de Deus, a Igreja. Em torno deste povo se aproximarão os pagãos, os quais se tornarão crentes. O nome Abraão significa “pai de muitas nações”.


Abençoarei aqueles que te abençoarem e amaldiçoarei aqueles que te amaldiçoarem. E todas as famílias da terra serão em ti abençoadas. [Gn 12,3]


Já não te chamarás Abrão mas sim Abraão, porque eu farei de ti o pai de inúmeros povos. [Gn 17,5]


  1. A aliança com Moisés

Trata-se da constituição efetiva da nação do povo escolhido, com sua libertação e seu território conforme Deus disse a Moisés:


Doravante , se escutardes a minha voz e se fordes fiéis à minha aliança, sereis dentre todos os povos, uma propriedade minha. Toda a terra me pertence. Mas vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa. São estas palavras que tu dirás aos filhos de Israel. [Ex 19,5-6]


Deus salvou seu povo da escravidão no Egito e fez com ele a Sua aliança e por intermédio de Moisés deu ainda Seus mandamentos, a Sua lei, para que o povo o reconhecesse e o servisse como o único Deus verdadeiro e vivo, pai providente e juiz justo e para que esperasse pelo Salvador prometido. Este Salvador tinha sua vinda anunciada pelos profetas da nação. Com Ele seria construída a Nova Aliança eterna. É o início da redenção total do povo de Deus, sua salvação.


  1. A Nova Aliança - Aliança em Cristo

Porque este é o meu sangue, sangue da aliança, que vai ser derramado por muitos para remissão dos pecados. [Mt 26,28]


Cristo é O mediador, único por meio do qual somos salvos. Ele é a plenitude de toda Revelação. Cristo é a Revelação completa pois é o próprio filho de Deus, a própria Sabedoria de Deus que habitou no meio de nós. Portanto, a Revelação está terminada. Cabe-nos (à Igreja) explicitar completamente o tesouro da Revelação e gradualmente anunciar todo o seu alcance.


Se atualmente, portanto, alguém quisesse interrogar a Deus, pedindo-Lhe alguma revelação, não só cairia numa insensatez, mas ofenderia muito a Deus por não dirigir os olhares unicamente a Cristo sem querer outra coisa ou novidade alguma. [São João da Cruz, Subida del Monte Carmelo 27,2]


No decurso da história houveram outras revelações ditas privadas, as quais não adicionam elementos ao depósito da fé, mas que podem ser compreendidas como agentes na ajuda da vivência da Revelação constituída. Guiado pelo magistério da Igreja, o senso dos fiéis sabe discernir e acolher o que nessas revelações constitui um apelo autêntico de Cristo e de seus santos. De todo modo, a Igreja não recomenda ao fiel pedir uma revelação privada a Deus por um interesse particular.

Qualquer “nova revelação” é mentira e deve ser combatida. A Revelação de Cristo é a única completa e perfeita. Por isso, é preciso que fiquemos atentos às investidas, neste sentido, das religiões não-cristãs e também certas seitas cristãs que se fundamentam em “revelações” (como é o caso dos Maranatas, Adventistas, Espíritas, dentre outras).

No próximo encontro veremos como se dá a transmissão da Revelação Divina: A Tradição Apostólica e as Sagradas Escrituras.




Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Credo Niceno-constatinomopolitano

Este credo é proclamado (reparem que o credo não é uma oração nem uma reza, mas uma proclamação de fé) sobretudo em Missas solenes e é mais comum na Igrejas européias. A cláusula filioque que aparece no original latino é motivo de grande divergência doutrinária entre a Igreja Católica Apostólica Romana e a Igreja Ortodoxa. Na última Missa celebrada pelo Papa Bento XVI para a miltidão no Brasil este credo foi cantado:


CREIO em um só Deus,
Pai onipotente, criador do céu e da terra,
de todas as coisas visíveis e invisíveis.
Creio em um só Senhor, Jesus Cristo,
Filho unigênito de Deus,
nascido do Pai, antes de todos os séculos:
Deus de Deus, luz da luz,
Deus verdadeiro de Deus verdadeiro.
Gerado, não criado, consubstancial
ao Pai.
Por ele todas as coisas foram feitas.
Ele, por amor de nós, e para nossa salvação,
desceu dos céus; e (todos se ajoelham)
se encarnou por obra do Espírito Santo,
em Maria Virgem, e se fez homem. Também por amor de nós foi
crucificado, sob Pôncio Pilatos;
padeceu e foi sepultado.
Ressuscitou ao terceiro dia,
conforme as Escrituras,
e subiu aos Céus,
onde está sentado à direita
do Pai.
E de novo há de vir, em sua glória,
para julgar os vivos e os mortos;
E o seu reino não terá fim.
Creio no Espírito Santo,
Senhor que dá a vida,
e procede do Pai e do Filho;
e com o Pai e o Filho
é igualmente adorado e glorificado:
ele o que falou pelos profetas.
Creio na Igreja,
una, santa, católica e apostólica.
Professo um só Batismo,
para a remissão dos pecados.
E espero a ressurreição
dos mortos e a vida do mundo que há de vir.
Amém!



Vejam também a versão original latina:



Credo in unum Deum,
Patrem omnipoténtem,
Factórem cæli et terræ,
Visibílium ómnium et invisibílium.
Et in unum Dóminum Iesum Christum,
Fílium Dei Unigénitum,
Et ex Patre natum ante ómnia sæcula.
Deum de Deo, lumen de lúmine, Deum verum de Deo vero,
Génitum, non factum, consubstantiálem Patri:
Per quem ómnia facta sunt.
Qui propter nos hómines et propter nostram salútem
Descéndit de cælis.
Et incarnátus est de Spíritu Sancto
Ex María Vírgine, et homo factus est.
Crucifíxus étiam pro nobis sub Póntio Piláto;
Passus, et sepúltus est,
Et resurréxit tértia die, secúndum Scriptúras,
Et ascéndit in cælum, sedet ad déxteram Patris.
Et íterum ventúrus est cum glória,
Iudicáre vivos et mórtuos,
Cuius regni non erit finis.
Et in Spíritum Sanctum, Dóminum et vivificántem:
Qui ex Patre Filióque procédit.
Qui cum Patre et Fílio simul adorátur et conglorificátur:
Qui locútus est per prophétas.
Et unam, sanctam, cathólicam et apostólicam Ecclésiam.
Confíteor unum baptísma in remissiónem peccatorum.
Et expecto resurrectionem mortuorum,
Et vitam ventúri sæculi. Amen!


quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Ecumenismo (completamente informal!)

Por que tentamos tanto fazer valer nossas idéias? Não nos basta expressar-nos. Nos sentimos impelidos a demonstrar que aquilo que expressamos aponta na direção correta. Na verdade, sendo mais rigoroso, creio (esqueçam qualquer rigor filosófico agora. É filosofia do Fracalossi mesmo) que a expressão, oral digamos, está sempre ligada aos seguintes objetivos: saber o que o outro pensa, apreender alguma informação ou idéia que nos leve a uma direção, isto é, que mova nossos pensamentos ou então desejamos que o outro entenda o que pensamos para questionar e nos dar um esclarecimento, no caso daquele que fala sem estar plenamente certo. No caso de quem diz "com certeza", para construir uma imagem de prestígio a partir da transmissão de suas convicções a outrem. Eu diria que existe ainda, sobretudo entre os prosélitos, aqueles que anunciam suas idéias para que, sendo aceitas, sintam-se melhores consigo mesmos. Por isso, acho que o proselitismo é, na maioria das vezes, uma expressão da falta de fé, ou melhor, de falta de um fundamento para a fé. A transmissão da mensagem de Cristo não deve ser feita apenas para que nos sintamos melhor, mas sobretudo para mover o descrente para a direção da luz de Deus. Sinceramente, e aí deve ir meu primeiro depoimento pessoal neste blog, não tô nem aí pro caminho que as pessoas escolham desde que ele não me incomode. Os incrédulos que se acertem com Deus! Leciono na catequese porque minha fé em Jesus está firmada na Igreja forte e que seja sempre capaz de anunciar o Evangelho para o maior número de pessoas possível. Parece um paradoxo? Não. Quero dizer que dou catequese para cumprir meu dever cristão. De fato, me alegro em ver meus alunos interessados, questionadores e bem formados. Quero que um dia eles sejam capazes de me dar aulas! Mas quanto à conversões e ensinamentos pessoais, isto é, numa conversa informal, tô nem aí pras convicções do outro. Me basta que haja respeito. É mais ou menos por aí que passa minha noção de ecumenismo, agora falando sério :). Deve haver respeito pela crença das pessoas. Em particular, vivemos num país laico - preferia que ele fosse um país católico, mas enfim... - e a liberdade de culto é garantida. Não cabe atacar publicamente sem ser atacado. Mas... é preciso saber se respeitar de modo que, ao menor sinal de provocação saibamos nos defender e defender àquilo em que cremos, defender a fé Católica!, no meu caso. Pode criticar a filosofia (ou a falta dela) de instituições e, obrigatoriamente, com argumentos sólidos, sob o perigo de incorrermos em discriminação.

Ecumenismo é por aí. Saber comprrender o direito que o outro tem de crer naquilo que quiser, mas sem permitir que nos destruamos a nós mesmo, como fazem alguns estúpidos que acham que o deus do hinduísmo é o mesmo que o nosso. Ou mesmo outros que pensam que Deus está em tudo e não há privilégios entre povos em conhecê-Lo. A tudo isso dá-se o nome de relativismo. Uma maldição de doutrina modernista muito combatida pelo Papa Bento XVI e sobre a qual escreverei um post específico. Adoremos a Cristo! Defendamos a Igreja, mas respeitemos o direito que todos têm de fazer suas escolhas... e que estes não venham me demover daquilo que me é caro. Defender a própria crença não é ser hostil, mas sim sincero consigo mesmo.

Viva a Igreja! Viva a Cristo!

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Catequização

Em vários momentos fico pensando no que escrever aqui no blog. Quero poder escrever pelo menos um pouco todo dia, não só pra que vocês criem o hábito de entrar aqui sabendo que vão encontrar algo novo mas pra que eu também, tendo um compromisso, não desanime. Bom, hoje digamos que eu gostaria de levantar a bola pra que você aí pense (e eu também) a respeito de um tema que é debatido sem o devido rigor, mas que foi de suma importância pra formação cultural do Brasil e, por que não dizer, da América Latina como um todo. A catequização. 


Não quero aqui, num primeiro momento dar minha opinião ou a da Igreja. Saibam apenas que mesmo dentro da Igreja muito ainda se discute sobre como apresentar o Evangelho àqueles que ainda não o conhecem. Em todo caso, devemos lembrar do que nos foi pedido por Cristo, isto é, ir pelo mundo e anunciar o Evangelho. Como fazê-lo de modo a não cometer um genocídio cultural completo? Quais são os limites da particularidade de manifestação de cada povo quando decidido a aceitar a Cristo? Como evangelizar quem está morrendo de fome? Qual o legado da catequização no Brasil e especialmente da Companhia de Jesus (jesuítas)? Saberão meus pontos de vista em breve. Pra quem quiser comentar, escreva o que pensa e certamente vou falar algo também. Senão, falaremos a respeito disso na nossa catequese sábado na Catedral.


Só pra começar... ao contrário do que dizem alguns, dos hereges aos desinformados, creio que a Companhia de Jesus foi a coisa mais importante que aconteceu em toda história do Brasil! (tem as Copas também, mas isso é outras história...).


terça-feira, 10 de novembro de 2009

Divagando sobre o que é boa literatura...

O que faz a boa literatura? Na minha opinião, um bom livro, conto, crônica, o que for, tem sempre duas bases muito bem estruturadas: a forma e a história. Quanto a forma, me refiro ao rigor linguístico, a utilização harmônica de elementos clássicos e contemporâneos. O uso de recursos de linguagem curiosos e que personalize o autor, que faça o leitor ficar preso esperando um nova palavra, uma nova forma de usar uma expressão, uma nova analogia.. enfim! algo que saia do óbvio e corriqueiro mas exalte e exprima toda beleza da língua. Cito exemplo de um autor que fez isso de maneira sublime (talvez o melhor escritor da história do Brasil): Machado de Assis. Ele tinha o que, com o perdão do estrangeirismo, hoje se chama de timing pra contar determinados fatos. Usava o número de linhas adequadas para descrever algo ou, principalmente alguém. Ele é meu escritor favorito na língua portuguesa, sem dúvida alguma. Mas temos gente mais atual, do modernismo, como Euclides da Cunha e Oswald de Andrade. Caras que meio que reinventaram a língua. "Os Sertões" de Euclides da Cunha é classificado por muitos como a verdadeira epopéia do povo brasileiro, algo como é "Os Lusíadas" de Camões para os portugueses. É claro que tem muita porquêra também. Mas outro dia a gente tira pra falar mal dos outros.


Quanto à outra base, ela é provavelmente encarada como a mais importante pela maioria (não é propriamente o meu caso. Gosto de formalismo, apesar de escrever de forma bastante informal aqui :). Contar uma boa história, seja de forma escrita ou oral é uma arte. Quantas vezes algum amigo já virou e disse: "Cara, vi um filme massa essa semana! Deixa eu te contar como era", e no seu íntimo você pensou: "por que não cai um raio na cabeça desse ***" (introduza os "elogios" que quiser. Como sou catequista, mantenho os meus em segredo). Isso ocorre porque a grande maioria das pessoas não tem habilidade suficiente para prender a atenção daquele pra quem conta a história. Na verdade, narrativas de qualquer tipo, incluindo teatro, cinema, música são certamente a parte mais delicada dos processos criativos. Na língua portuguesa temos uma enxurrada de gente, entretanto, que é capaz de dar conta do recado e fazer o sujeito ficar preso à história do começo ao fim. Até o Paulo Coelho (cujos temas dos livros e a visão de mundo eu abomino e acho que todos deveriam abominar) consegue fazer histórias que prendem o leitor. Tem gente que gosta do Manuel Carlos, escritor da atual novela das 8 (socorro!) e por aí vai. Neste quesito, o gosto do leitor conta muito (só pra deixar claro, odeio novelas e especialmente as escritas pelo Manuel Carlos).


Acho que o que me motivou a falar um pouco sobre isso hoje foi o fato de eu ter chegado à conclusão que um certo escritor chamado Geoffrey Blainey não ser capaz de   dar conta do recado. Infelizmente, o que era pra ser o "Uma Breve História do Tempo" da história, "Uma Breve História do Mundo", seu livro que estou lendo, é um porre (de vinho ruim...).


Qualquer hora falo um pouco mais de literatura e de uma forma mais séria, ok? Só lembrando que hoje é dia de São Leão Magno, Papa e Doutor da Igreja, que morreu em 461 em Roma, um dos maiores Papas da história que, entre outras coisas extraordinárias, presidiu o IV Concílio de Calcedônia, no qual foi definida a doutrina católica acerca da natureza dualística de Nosso Senhor Jesus Cristo.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Um pouco de ciência e fé

Ontem falei algo sobre fé e ciência e a respeito das acusações de que a Igreja "joga contra" a razão. É claro que este assunto é inesgotável, mas achei interessante falar rapidamente hoje sobre o outro lado da moeda, isto é, o que muitos daqueles que têm fé pensam da ciência. Desde já, adianto que me refiro essencialmente a posicionamentos pessoais a não institucionais.

Certa vez uma amiga minha, adventista, me perguntou por que eu estudava cosmologia quântica se, sendo cristão, eu não deveria crer na teoria do big bang. Respondi com outra pergunta: "o que tem uma coisa a ver com a outra?". Digo, no que a teoria do big bang contradiz o princípio de que "no princípio criou Deus o céu e a Terra" (Gn 1,1)?  Outro amigo meu, de formação adventista (conheço uma penca de adventista... acho que o que menos conheço são católicos :) me perguntou se, depois do mestrado e no meio do doutorado eu já tinha me tornado ateu. Respondi novamente com uma pergunta: "o que tem uma coisa a ver com outra?". Existe, talvez pela mesma questão histórica que apresentei ontem, uma ligação entre ciência e ateísmo, o que é lamentável. Naturalmente, existiram (e existem) muitos cientistas crentes - seja lá no que for - e cristãos. Podemos citar Kepler, Newton (esse eu espero que esteja no fundo do inferno), Einstein (estes dois últimos não eram cristãos mas criam na existência de algo transcendente que seria responsável pelo bom ordenamento das coisas, pra ser simplista), dentre vários outros.  A questão é que, assim como existe um preconceito por parte dos não crentes, existe também um preconceito por parte daqueles que crêem pois estes acabam enxergando com exagerada desconfiaça os desenvolvimentos científicos - modelos teóricos e constatações observacionais. Entram numa batalha que não podem ganhar por não terem o conhecimento científico e baseiam seus argumentos em declarações apaixonadas, o que nos joga a nós, cristãos, numa perigosa categoria de apaixonados por Jesus e não tementes e crentes nele (a rigor, há seitas cristãs e movimentos em muito lugar sério que realmente encara a religiosidade assim, como uma paixão, o que é lamentável). A Igreja ensina que não se deve combater as ciências naturais. O que a ciência revela como verdade de maneira consistente não deve ser questionado, mas deve iluminar a compreensão do mundo e das relações humanas sobre ele à luz da doutrina da Igreja. Isso quer dizer que a ciência deve ser nossa única guia? Definitivamente não! Citemos um caso, que acho que é mal conduzido pelos dois lados - algumas autoridades da Igreja, além de fiéis leigos de monte, e médicos e biólogos - a respeito da prevenção da AIDS quando se utiliza da camisinha. Algum tempo atrás houve uma autoridade da Igreja (não sei precisar qual, mas era de Bispo pra cima, quiçá um cardeal) que disse que a camisinha não previne a transmissão do vírus. Ora, dados estatísticos atestam que o preservativo previne sim, com grande porcentagem, a transmissão da AIDS durante as relações sexuais. Vemos portanto um membro importante da Igreja (e que a mídia faz questão de dizer que representa a Igreja como um todo, o que é um absurdo) dizer que a ciência está errada, mesmo que o resultado seja conhecido por todos. Por outro lado, há cientistas (sociais sobretudo) que dizem que o incentivo à abstinência é uma violência contra a liberdade (olha ela aí de novo) e portanto não funciona. Quem está com a razão? Ninguém, e os dois ao mesmo tempo! A abordagem do tema é que foi feita de forma equivocada. A Igreja não pode e nem deve (e provavelmente nunca o fará) incentivar o uso de preservativo nas relações sexuais pois isso vai contra a sua doutrina e para nós católicos, a doutrina da Igreja é santa e imaculada e é assim mesmo que devemos tê-la. Ela é perfeita! Entretanto, é isso o que a autoridade eclesiástica deveria ter dito: que a Igreja tem autoridade pra dizer que não se deve usar e que a razão pra isso é doutrinal (de fato, com palavras menos duras, é o que os Bispos em geral dizem, graças a Deus). A Igreja não deve falar aos não cristãos como se ela também fosse neutra. Somos católicos, cristãos. Não somos e nunca seremos neutros! Quanto à parte científica, é óbvio que a abstinência é a ferramenta mais adequada à prevenção da AIDS, quer ela queira ou não. E vai aos sociólogos uma pergunta: vale a pena para manter essa dita "liberdade sexual" entregar-se à prisão de um vírus que leva à morte? Acho que a resposta é óbvia. O que tem em comum as duas declarações? Ambas estão bastante contaminadas por visões apaixonadas e, por este motivo, se afastam da razão.

Outro caso que pode ser citado é o de alguns cientistas cristãos (em geral sem muita envergadura) que tentam conciliar fé e ciência na marra. Coisas do tipo "ah, o indeterminismo da mecânica quântica pode ser uma manifestação da vontade de Deus, que não está ao controle do homem". Deus me livre! mas o tanto de coisa que já ouvi sobre mecânica quântica ligadas à outras áreas chega a ser engraçado. Ou ainda, tentativas exdrúxulas de combater sistemas científicos bem construídos (mas cuja aplicação não tem limites claros e pode inclusive estar recheada de erros) como a teoria da evolução de Darwin. Ou ainda teorias sobre o dilúvio, sobre a abertura do Mar Vermelho e por aí vai. Essas tentativas de buscar a ciência em tudo pode esvaziar as esegeses bíblicas sobre estes assuntos e tirar-nos da categoria de crentes com um sistema filosófico-teológico bem fundamentado para jogar-nos na categoria Indiana Jones - Caçadores da Arca Perdida. Certamente há muito de científico em vários dos relatos bíblicos mas esta deve ser encarada como uma questão secundária. A Bíblia é um livro histórico-teológico e não de ciência natural.

Enfim, essa discussão não se esgota aqui e leva a outra de meu interesse, quer seja: "como fazer apologética com isenção total de paixão?"ou, como defender uma idéia, uma perspectiva, sem paixão? Mas pra isso, é preciso definir o que é paixão...

Um pouco de fé e ciência

Achei interessante compartilhar com quem acompanha este blog uma discussão que tive a partir da dúvida levantada por um crismando (que por sinal é amigo meu desde a graduação no curso de física). Eu falava sobre a fé e apresentava as definições que davam a esta um sentido essencialmente racional. Daí, meu amigo me pediu para falar um pouco a respeito do porquê da Igreja ser acusada de trabalhar, de certo modo, contra a razão, se a definição de fé era racional. Achei a questão excelente. De fato, gosto dessas discussão sobre fé e ciência até mesmo pela minha formação. Bom, a pergunta foi mais ou menos essa e a resposta mais ou menos esta:

De fato, a Igreja caíria num contrasenso se tendesse para longe da razão pois a própria definição de fé, que é um dos pilares de toda  construção da teologia cristã (mais precisamente, a fé em Cristo), é apresentada como "adesão PELA RAZAO das verdades reveladas por Deus e ensinadas pela Igreja" conforme ensinamentos do Apóstulo São Paulo. Possivelmente, essas acusações surgiram séculos atrás. Na idade antiga e média a ciência era feita por filósofos. Sua ocupação se estendia portanto também à teologia (que, conforme mostra São Tomás de Aquino em sua Suma Teológica também é uma ciência). Isso conduziu os desenvolvimentos científicos e teológicos muitas vezes a caminhos imprecisos de modo que a ciência natural deveria se adequar à teologia e não o contrário. Ora, este fato foi responsável por envolver a Igreja num debate que muitas vezes ela não estava preparada para encarar pois, lembremos, a Igreja é infalível em questão de fé e moral mas não científica. Estes debates certamente não pareciam tão superficiais à época como nos parecem hoje e a discussão era e ainda é legítima. Entretanto, fatos como a condenação de Giordano Bruno (que ficou conhecido por defender o modelo de Copérnico, mas não foi propriamente condenado por isso mas por defender idéias de um certo panteísmo Egipcio de forma arrogante contra a Igreja) e  de Galileu (que muito mais culpado foi por suas idéias ligadas ao atomismo que a astronomia) criaram propagandas negativas que até hoje são lembradas de formas muitas vezes levianas. É certo que o tratamento que a Igreja deu aos dois casos levou a isso uma vez que a questão científica ficava muito mais clara nos processos de condenação que as filosóficas e teológicas, estas sim, nas quais a Igreja goza de autoridade plena.

Nos dias atuais, o problema parace ter mudado um pouco de foco. A Igreja ainda é acusada muitas vezes de fazer pouco caso da razão. Mas, no mundo atual o motivo é essencialmente diferente. Vivemos numa sociedade marcada pelo individualismo, humanismo exacerbado, hedonismo e consumismo de tal modo que qualquer regra moral ou mesmo doutrinária é questionada como se estas constituíssem um crime à liberdade. Portanto, dizer que a Igreja não apóia o aborto por não usar a razão não é uma questão mais científico-filosófica, mas essencialmente sociológica e os meios de comunicação, em geral do lado do modernismo sobre o qual falarei um dia, espalham aos quatro ventos que a Igreja é atrasada e irracional, apaixonada e engessada.

Lembremos entretanto que a Igreja, se pensada como empresa, é provavelmente a instituição mais organizada do mundo, com maior número de funcionários e a mais antiga. Lembremos que o corpo doutrinário da Igreja é consistente há muito mais tempo do que a sociedade atual pode pensar e que entre seus "quadros" estiveram pessoas como São Tomás de Aquino, Santo Agostinho e São Bernardo dentre vários outros filósofos de reconhecida importância para a evolução intelectual da humanidade. Ainda, a Igreja é a criadora das universidades, foi quem primeiro discutiu o método científico e possui o maior número de escolas do mundo. E mais, a Igreja ensina que Deus é também razão e não faz sentido, portanto, se afastar dela.