domingo, 22 de novembro de 2009

CATEQUESE

A Transmissão da Revelação Divina 
Parte I: A Tradição Apostólica
por Raphael Fracalossi

Neste terceiro encontro procuraremos compreender o papel da Tradição Apostólica na transmissão da Revelação Divina. Como de costume, o texto básico é o Catecismo da Igreja Católica.



Conforme vimos, Deus quer fazer-se conhecer à humanidade para que esta o adore e seja plena Nele. Conhecer a Deus ou ter acesso à sua palavra é estar diante da verdade plena e imutável pois o próprio Deus é pleno na perfeição e imutável em si mesmo. Portanto, sendo Deus perfeito e imutável, espera-se que o mundo deva receber sua revelação também de forma plena e imutável. Está explícito como uma “qualidade” da perfeição de que esta se faça conhecer de forma legítima e sem ambiguidade. Portanto, deve haver apenas uma única revelação em conteúdo - Deus não pode revelar-se diferente em si a pessoas diferentes. Vimos já os diversos estágios em que esta revelação se deu até sua plenitude em Jesus Cristo. Veremos agora os métodos em que esta relação nos é comunicada: as Sagradas Escrituras e a Tradição Apostólica, sobre a qual nos debruçaremos hoje.


Deus dispôs com suma benignidade que aquelas coisas que revelara para a salvação de todos os povos permanecessem sempre íntegras e fossem transmitidas a todas as gerações.  [Constituição dogmática Dei Verbum]


Cristo Senhor, em quem se consuma toda revelação do Sumo Deus, ordenou aos apóstulos que o Evangelho, prometido antes pelos profetas, completado por ele e por sua própria boca promulgado, fosse por eles pregada a todos os homens como fonte de toda verdade salvítica e de toda disciplina de costumes, comunicando-lhes os dons divinos.  [Constituição dogmática Dei Verbum]


A transmissão do Evangelho se deu de maneira oral, pela pregação dos apóstulos que receberam os ensinamentos diretamente de Cristo ou aprenderam das sugestões do Espírito Santo, muitas coisas das quais registraram por escrito.

Para que o Evangelho e os ensinamentos permanecessem inalterados, os apóstulos deixaram como seus sucessores os Bispos. Esta sucessão deve manter-se viva até o fim dos tempos.


a Igreja, em sua doutrina, vida e culto, perpetua e transmite a todas as gerações  tudo o que ela é, tudo o que crê.  [Constituição dogmática Dei Verbum]



O ensinamento dos Santos Padres testemunha a presença vivificante desta tradição, cujas riquezas se transfundem na praxe e na vida da Igreja crente e orante.  [Constituição Dogmáti ca Dei Verbum]


Portanto a Igreja é a fiel trasmissora da mensagem divina ao homem, continuamente inspirada pelo Espírito Santo e, por este motivo, isenta de erro em matéria de fé e moral.

Note que, por terem a mesma fonte segura, a Tradição Apostólica e as Escrituras estão estreitamente unidas. Isso é tanto mais visível quando se observa que quem compilou o atual canôn das Escrituras e a traduziu inicialmente para o grego e o latin foi a Igreja com a autoridade dada por Cristo, com constante auxílio do Espírito Santo. Disso, se não há a Tradição Apostólica conferida pelo próprio Deus em Cristo, não é possível afirmar serem as Sagradas Escrituras uma fonte segura, isenta de erros.

A Sagrada Tradição transmite integralmente aos sucessores dos apóstulos a palavra de Deus confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos apóstulos para que, sob a luz do Espírito de verdade, eles, por sua pregação, fielmente a conservem, exponham e difundam.

Portanto, as certezas da Igreja derivam da Tradição e das Escrituras de modo que ambas devem ser igualmente veneradas. Em vista disso, qualquer outra tradição, dita eclesial local deve estar conforme à Tradição Apostólica, sob o guia do Magistério da Igreja.

O depósito da fé (depositum fidei) contido nas Escrituras e na Tradição é confiado à totalidade dos fiéis. Então, Bispos, Cardeais, fiéis leigos, Diáconos, etc. professam a mesma fé. Entretanto, o Magistério da Igreja é o único autorizado a interpretar as Escrituras. Afinal, como Deus é único e sua Revelação também é única, o anúncio deve também ser único e a partir de uma autoridade. Esta foi divinamente dada à Igreja por Cristo sobre Pedro, príncipe dos Apóstolos, Bispo de Roma, que transmitiu seu legado a seus secessores.


Bem aventurado és Simão Barjona, porque não foi a carne e o sangue que a ti revelou, mas sim meu Pai que está no céus, e eu digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão sobre ela. E eu te darei as chaves do reino dos céus, e tudo que ligares na terra será ligado também nos céus. [Mt XVI, 16-19s]


A assistência constante do Espírito Santo e a promessa de Cristo de que permanece com os seus “todos os dias até a consumação dos séculos” [Mt XXVIII, 20] garante a inerrância da Igreja em sua doutrina. A autoridade da Igreja se manifesta tanto mais fortemente na definição dos dogmas. Estes são verdades de fé, anúncio de verdades contidas na Revelação ou em conexão íntima com esta verdade. São princípios que devem ser obrigatoriamente aceitos pelos fiéis e guias no caminho que leva a Deus. São exemplos de dogmas a Santíssima Trindade, a Imaculada Conceição de Maria, a Infalibilidade Papal, entre outros.

Sob uma perspectiva não-transcedental, a Igreja é o conjunto do povo de Deus. Este povo professa uma única fé e deve anunciá-la sempre desde o pequenino fiel leigo até a mais alta autoridade eclesiástica mas sempre em concordância com a Tradição Apostólica, com as Escrituras e enfim, com o Magistério da Igreja.


Fica, portanto, claro que segundo o sapientíssimo plano divino, a Sagrada Tradição, a Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja estão de tal modo entrelaçados e unidos que um  não tem consciência  sem os outros, e que juntos, cada qual a seu modo, sob ação do mesmo Espírito Santo, contribuem eficazmente para a salvação das almas. [Constituição Dogmática Dei Verbum]



Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Gárgulas

Muitos devem se indagar se os templos católicos, em sua arquitetura, carregam significados, isto é, se a consrtução em si, sua concepção, tem por intenção, além do óbvio que é prestar culto a Deus, transmitir alguma mensagem. A resposta é sim. Vários aspectos externos e internos relacionado à escolhas arquitetônicas são pensados visando transmitir alguma mensagem. Vou abordar especificamente um hoje. Os gárgulas.

A figura ilustra bem o que são estas criaturas. Na verdade, gárgula é a denominação de uma criatura em particular. Nas fachadas encontramos além deles, as quimeras, figuras de animais e de pessoas, às vezes meio homens, meio qualquer coisa, em geral com aspecto horripilante. E a intenção é essa mesma! Gerar espanto em quem olha. Muitos absurdos já li a respeito do porquê de nas Igrejas, especialmente na fachada das européias e de estilo gótico, estas esculturas estarem. Na realidade, existem três razões para isso. Era preciso por uma questão de engenharia, que as Igrejas possuíssem canos ou dutos para escoamento da água que caía sobre os telhados. Naturalmente, um cano na fachada de uma construção seria um arrombo estético considerável. Como pegava mal fazer canos saindo pela boca de imagens de santos (ou de outras partes quaisquer) achou-se melhor utilizar de figuras que representassem o oposto destes. Figuras  a que poderia-se submeter ter água e sujeira saindo delas. Isso se adequou muito bem com outra das razões: o estilo gótico é imponente e, de certo modo sombrio. Desta forma casava bem com as fachadas deste estilo arquitetônico figuras assustadoras. Isso cabe bem ainda com a terceira razão, a teológica. A princípio, essas figuras ficavam no exterior da Igreja para representar as perversidades e terrores existentes no mundo e sua incapacidade de entrar na Igreja e lá ganharem lugar de destaque. Existem casos extremos, como por exemplo na Igreja de Notre Dame du Bon Espoir na cidade francesa de Dijon, onde morei, em que na porta, olhando para o interior era esculpida a cabeça do diabo. Ele olhava na direção do altar com olhar aterrorizante mas incapaz de entrar no ambiente sagrado do templo. O estilo acabou fazendo destas figuras parte da decoração, parte da arte.

Bom, espero que tenham gostado da curiosidade. Infelizmente no Brasil temos um número bem reduido de Igrejas em estilo gótico quando comparado com a Europa (aqui as Igrejas antigas têm sobretudo o estilo barroco, sobre o qual falarei em outra ocasião). Mas, o importante mesmo é que os templos sejam lugares em que se transmita a paz e a esperança que esperamos em Deus.

obs.: A primeira das figuras é de um dos muitos gárgulas da Catedral de Notre Dame em Paris. A segunda é a fachada da Catedral de Notre Dame de Dijon, também na França.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Doutores da Igreja - Santo Alberto Magno

Com algum atraso, gostaria de postar alguns aspectos da vida de Santo Alberto Magno (dois exemplos de sua iconografia abaixo) aquele que, dentre outras atribuições digníssimas, foi professor de Santo Tomás de Aquino, um dos maiores filósofos de todos os tempos:


15 de novembro
Santo Alberto Magno,
Bispo e Doutor da Igreja
(+ Colônia, Alemanha, 1280)

Foi sem dúvida um dos maiores sábios de todos os tempos. Não apenas dominava como Mestre a Filosofia e a Teologia (matérias em que teve como discípulo a São Tomás de Aquino) mas estendia seu saber às ciências naturais. Foi físico e químico, estudou astronomia, meteorologia, mineralogia, zoologia, botânica, escreveu livros sobre tecelagem, navegação,agricultura. Tão assombroso acúmulo de ciência não o impediu de ser um dominicano, piedoso e observante. Nomeado bispo de Regensburg, mostrou-se pastor zeloso e exemplar, mas logo que pôde pediu e obteve dispensa das funções episcopais e retornou a sua cela de monge humilde e sábio. Foi chamado "o Doutor Universal". 



Vejam que esta denominação "doutor da Igreja" é atribuída aos veneráveis Santos e veneráveis Santas que possuem escritos de considerável valor teológico. Além disso, figuram alguns nomes cujas experiências místicas também exerceram grande influência em suas vidas. Em geral, todos são responsáveis por contribuições determinantes para as sociedades de seus tempos e para explicitar e sistematizar de maneira definitiva a Revelação Divina. O número daqueles que recebem este título é bem pequeno e dentre eles podemos citar além de Santo Alberto Magno e de Santo Tomás de Aquino, a Santo Agostinho, Santa Terezinha de Lisieux, Santa Catarina de Sena, São Gregório Nazianzeno, São Gregório Magno dentre outros...


Existem outros Santos cuja envergadura é inegável por sua contribuição teológico-filosófica e que viveram no princípio do Cristianismo. Estes, também doutores da Igreja recebem o título, reconhecido mesmo fora do catolicismo como no protestantismo, de "Padres da Igreja" (daí porque o nome do estudo dos escritos destes é chamado de Patrística) mas a respeito deles falarei em outra ocasião. 


A vida dos Santos devem nos servir de exemplo a fim de nos fortalecer na fé e na boa conduta. Cremos na doutrina da Comunhão dos Santos que nos coloca em contato com todos os nossos irmãos e sobretudo com aqueles que estão junto de Deus e rogam por nós. 


Viva a Todos os Santos!

domingo, 15 de novembro de 2009

Documentos Papais

O post de hoje é mais uma dica:

http://www.vatican.va/phome_po.htm

Este é o endereço da página do Vaticano em português. Lá há de tudo, desde visitas virtuais pelo patrimômio artístico do país (e de fora da Santa Sé) até partes dos Arquivos Secretos. Em particular, envio um link chamado arquivo dos Papas onde, como o nome diz, pode-se obter todos os documentos (nem todos em português) dos Papas desde Leão XIII:

http://www.vatican.va/holy_father/index_po.htm

Segue ainda o link, uma segestão, da Encíclia do Papa Bento XVI "Deus caritas est:

http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20051225_deus-caritas-est_po.html

Fucem bastante no site do Vaticano. Há coisas realmente magníficas lá.





O Romano Pontífice, como sucessor de Pedro, é o perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade quer dos Bispos quer da multidão dos fiéis. 
LUMEN GENTIUM, 23

sábado, 14 de novembro de 2009

CATEQUESE


DEUS VEM AO ENCONTRO DO HOMEM
por Raphael Fracalossi

Neste segundo encontro vamos discutir a existência de Deus a partir da Revelação, isto é, da apresentação dele por Sua própria vontade à humanidade. O Catecismo da Igreja Católica é o texto no qual me baseei.



O homem é capaz de intuir a existência de Deus a partir das coisas criadas utilizando sua razão, seu poder de questionamento. Entretanto, a existência de Deus pode ser conhecida a partir de outra ordem, a qual o ser-humano não é capaz de atingir por suas próprias forças: a Revelação divina. Chama-se pois Revelação à decisão completamente livre de Deus de dar-se a conhecer ao homem revelando-se e aos seus mistérios os quais concebeu desde a eternidade em seu Verbo, Jesus Cristo.


Aprouve a Deus, em sua bondade e sabedoria, revelar-se a si mesmo e tornar conhecido o mistério de Sua vontade, pela qual os homens, por intermédio de Cristo, Verbo feito carne, no Espírito Santo, têm acesso ao Pai e se tornam participantes da natureza divina. [Constituição dogmática Dei Verbum]


Deus revela-se aos homens para torná-los capazes de responder ao Seu chamado, de conhecê-Lo e de amá-Lo muito além do que o ser-humano poderia fazê-lo por si próprio. Em Cristo, Deus nos comunica sua divindade fazendo de nós, desse modo, seus filhos adotivos.

A Revelação é comunicada ao homem através da caminhada deste na história.  A plenitude é atingida na pessoa e na missão do seu Verbo, Cristo. Podemos, esquematicamente, distribuir a revelação em etapas determinadas por marcantes acontecimentos na relação do homem com Deus:

  1. A criação:


Criando pelo Verbo o universo e conservando-o, Deus proporciona aos homens, nas coisas criadas, um permanente testemunho de si e, além disso, no intuito de abrir caminho de uma salvação superior, manifestou-se a si mesmo, desde os primórdios, a nossos primeiros pais.  [Constituição dogmática Dei Verbum]


O ser-humano foi convidado por Deus a uma união íntima com Ele. Esta comunhão é desviada pelo pecado original cometido pelo homem. Deus, em seu amor perfeito pelo homem, deseja que este o ame livremente e por esta razão concede-lhe o livre arbítrio. Por si mesmo o homem opta, tentado pelo Diabo, por afastar-se de Deus aproximando-se do mal, cometendo o que assim chamamos de pecado original. Esta desobediência afeta todo o gênero humano e a partir dela o homem se vê envolto no mal e pratica-o. Contudo, esta primeira queda não faz com que a Revelação seja interrompida. Deus promete enviar  à humanidade a “fonte” da redenção e todos aqueles que seguem perseverantes na prática do bem encontram a vida eterna.


E quando pela desobediência perderam vossa amizade, não os abandonastes ao poder da morte. (...) Oferecestes muitas vezes aliança aos homens e às mulheres [Oração Eucarística  IV]


Nas etapas seguintes a Revelação vem a reboque de uma aliança cósmica, isto é, um pacto entre Deus e o homem. A plenitude da Revelação ocorre portanto junto à nova e definitiva aliança em Cristo.

  1. A aliança com Noé

Esta aliança está ligada às leis da natureza


A seguir, Deus disse a Noé e a seus filhos: “Vou estabelecer uma aliança convosco, com a vossa descendência e com os animais e demais seres vivos que os rodeiam: as aves, os animais domésticos, todos os animais selvagens que estão convosco, todos aqueles que saíram da arca. Estabeleço convosco esta aliança: não mais criatura alguma será exterminada pela água do dilúvio e não haverá jamais outro dilúvio para destruir a terra” [Gn 9, 8-11]


A maldade do homem e seu afastamento de Deus tornaram-se tão grandes que a própria ordem cósmica da criação estava perdida. Deus lança então um grande castigo visando renovar o gênero humano. Este castigo é o dilúvio, a princípio uma lenda de alguns dos povos daquele tempo, como mesopotâmios e babilônios, e narrada biblicamente sob o gênero literário da epopéia. De fato, por constar em registros históricos de diferentes culturas, é de se crer que tenha havido um evento ligado a chuvas e inundações que castigou boa parte do mundo antigo. O relato, embora figurativo é carregado de uma grande mensagem teológica:

> Deus não suporta a iniquidade mas a sua misericórdia está sempre presente de tal modo que, após a destruição há um resto, um gérmen de salvação representado aqui por Noé;

> O dilúvio marca, na perspectiva bíblica, o fim do mundo antigo pela água. O mundo atual, também corrompido, o será pelo fogo (2Pe 2,5; 2Pe 3,5-12; Mt 24,17ss; Lc 17,27);

> O dilúvio, lavando o mundo de seus crimes e fazendo nascer da água um mundo novo, é figura do Batismo que nos salva.

áqueles que outrora, nos dias de Noé, tinham sido rebeldes, quando Deus aguardava com paciência, enquanto se construía a arca, na qual poucas pessoas, oito apenas, se salvaram sobre a água. Esta água era uma figura do batismo, que agora vos salva, não pela purificação das impurezas da carne, mas justificando a consciência para com Deus, pela ressurreição de Jesus Cristo. [1Pe 3, 20-21]

A aliança com Noé também está ligada à Economia divina para com as “nações”, isto é, para com os homens agrupados segundo seus países, cada um segundo sua língua e segundo seus clãs.


Deles nasceram os povos que se dispersaram por diversos países, cada um segundo sua língua, segundo as respectivas famílias e nações. [Gn 10,5]


Esta ordem ao mesmo tempo cósmica, social e religiosa da pluralidade das nações destina-se a limitar o orgulho de uma humanidade decaída que, unânime em sua perversidade, gostaria de construir por si mesma sua unidade à maneira de Babel. Contudo, devido ao pecado, o politeísmo, assim como a idolatria da nação e de seu chefe, constitui uma contínua ameaça de perversão pagã para essa Economia provisória.

  1. A aliança com Abraão

A aliança com Abraão trata da descendência e da constituição da nação de Deus. Este povo será o depositário das promessas feitas aos patriarcas que prepara a constituição da unidade dos filhos de Deus, a Igreja. Em torno deste povo se aproximarão os pagãos, os quais se tornarão crentes. O nome Abraão significa “pai de muitas nações”.


Abençoarei aqueles que te abençoarem e amaldiçoarei aqueles que te amaldiçoarem. E todas as famílias da terra serão em ti abençoadas. [Gn 12,3]


Já não te chamarás Abrão mas sim Abraão, porque eu farei de ti o pai de inúmeros povos. [Gn 17,5]


  1. A aliança com Moisés

Trata-se da constituição efetiva da nação do povo escolhido, com sua libertação e seu território conforme Deus disse a Moisés:


Doravante , se escutardes a minha voz e se fordes fiéis à minha aliança, sereis dentre todos os povos, uma propriedade minha. Toda a terra me pertence. Mas vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa. São estas palavras que tu dirás aos filhos de Israel. [Ex 19,5-6]


Deus salvou seu povo da escravidão no Egito e fez com ele a Sua aliança e por intermédio de Moisés deu ainda Seus mandamentos, a Sua lei, para que o povo o reconhecesse e o servisse como o único Deus verdadeiro e vivo, pai providente e juiz justo e para que esperasse pelo Salvador prometido. Este Salvador tinha sua vinda anunciada pelos profetas da nação. Com Ele seria construída a Nova Aliança eterna. É o início da redenção total do povo de Deus, sua salvação.


  1. A Nova Aliança - Aliança em Cristo

Porque este é o meu sangue, sangue da aliança, que vai ser derramado por muitos para remissão dos pecados. [Mt 26,28]


Cristo é O mediador, único por meio do qual somos salvos. Ele é a plenitude de toda Revelação. Cristo é a Revelação completa pois é o próprio filho de Deus, a própria Sabedoria de Deus que habitou no meio de nós. Portanto, a Revelação está terminada. Cabe-nos (à Igreja) explicitar completamente o tesouro da Revelação e gradualmente anunciar todo o seu alcance.


Se atualmente, portanto, alguém quisesse interrogar a Deus, pedindo-Lhe alguma revelação, não só cairia numa insensatez, mas ofenderia muito a Deus por não dirigir os olhares unicamente a Cristo sem querer outra coisa ou novidade alguma. [São João da Cruz, Subida del Monte Carmelo 27,2]


No decurso da história houveram outras revelações ditas privadas, as quais não adicionam elementos ao depósito da fé, mas que podem ser compreendidas como agentes na ajuda da vivência da Revelação constituída. Guiado pelo magistério da Igreja, o senso dos fiéis sabe discernir e acolher o que nessas revelações constitui um apelo autêntico de Cristo e de seus santos. De todo modo, a Igreja não recomenda ao fiel pedir uma revelação privada a Deus por um interesse particular.

Qualquer “nova revelação” é mentira e deve ser combatida. A Revelação de Cristo é a única completa e perfeita. Por isso, é preciso que fiquemos atentos às investidas, neste sentido, das religiões não-cristãs e também certas seitas cristãs que se fundamentam em “revelações” (como é o caso dos Maranatas, Adventistas, Espíritas, dentre outras).

No próximo encontro veremos como se dá a transmissão da Revelação Divina: A Tradição Apostólica e as Sagradas Escrituras.




Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Credo Niceno-constatinomopolitano

Este credo é proclamado (reparem que o credo não é uma oração nem uma reza, mas uma proclamação de fé) sobretudo em Missas solenes e é mais comum na Igrejas européias. A cláusula filioque que aparece no original latino é motivo de grande divergência doutrinária entre a Igreja Católica Apostólica Romana e a Igreja Ortodoxa. Na última Missa celebrada pelo Papa Bento XVI para a miltidão no Brasil este credo foi cantado:


CREIO em um só Deus,
Pai onipotente, criador do céu e da terra,
de todas as coisas visíveis e invisíveis.
Creio em um só Senhor, Jesus Cristo,
Filho unigênito de Deus,
nascido do Pai, antes de todos os séculos:
Deus de Deus, luz da luz,
Deus verdadeiro de Deus verdadeiro.
Gerado, não criado, consubstancial
ao Pai.
Por ele todas as coisas foram feitas.
Ele, por amor de nós, e para nossa salvação,
desceu dos céus; e (todos se ajoelham)
se encarnou por obra do Espírito Santo,
em Maria Virgem, e se fez homem. Também por amor de nós foi
crucificado, sob Pôncio Pilatos;
padeceu e foi sepultado.
Ressuscitou ao terceiro dia,
conforme as Escrituras,
e subiu aos Céus,
onde está sentado à direita
do Pai.
E de novo há de vir, em sua glória,
para julgar os vivos e os mortos;
E o seu reino não terá fim.
Creio no Espírito Santo,
Senhor que dá a vida,
e procede do Pai e do Filho;
e com o Pai e o Filho
é igualmente adorado e glorificado:
ele o que falou pelos profetas.
Creio na Igreja,
una, santa, católica e apostólica.
Professo um só Batismo,
para a remissão dos pecados.
E espero a ressurreição
dos mortos e a vida do mundo que há de vir.
Amém!



Vejam também a versão original latina:



Credo in unum Deum,
Patrem omnipoténtem,
Factórem cæli et terræ,
Visibílium ómnium et invisibílium.
Et in unum Dóminum Iesum Christum,
Fílium Dei Unigénitum,
Et ex Patre natum ante ómnia sæcula.
Deum de Deo, lumen de lúmine, Deum verum de Deo vero,
Génitum, non factum, consubstantiálem Patri:
Per quem ómnia facta sunt.
Qui propter nos hómines et propter nostram salútem
Descéndit de cælis.
Et incarnátus est de Spíritu Sancto
Ex María Vírgine, et homo factus est.
Crucifíxus étiam pro nobis sub Póntio Piláto;
Passus, et sepúltus est,
Et resurréxit tértia die, secúndum Scriptúras,
Et ascéndit in cælum, sedet ad déxteram Patris.
Et íterum ventúrus est cum glória,
Iudicáre vivos et mórtuos,
Cuius regni non erit finis.
Et in Spíritum Sanctum, Dóminum et vivificántem:
Qui ex Patre Filióque procédit.
Qui cum Patre et Fílio simul adorátur et conglorificátur:
Qui locútus est per prophétas.
Et unam, sanctam, cathólicam et apostólicam Ecclésiam.
Confíteor unum baptísma in remissiónem peccatorum.
Et expecto resurrectionem mortuorum,
Et vitam ventúri sæculi. Amen!


quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Ecumenismo (completamente informal!)

Por que tentamos tanto fazer valer nossas idéias? Não nos basta expressar-nos. Nos sentimos impelidos a demonstrar que aquilo que expressamos aponta na direção correta. Na verdade, sendo mais rigoroso, creio (esqueçam qualquer rigor filosófico agora. É filosofia do Fracalossi mesmo) que a expressão, oral digamos, está sempre ligada aos seguintes objetivos: saber o que o outro pensa, apreender alguma informação ou idéia que nos leve a uma direção, isto é, que mova nossos pensamentos ou então desejamos que o outro entenda o que pensamos para questionar e nos dar um esclarecimento, no caso daquele que fala sem estar plenamente certo. No caso de quem diz "com certeza", para construir uma imagem de prestígio a partir da transmissão de suas convicções a outrem. Eu diria que existe ainda, sobretudo entre os prosélitos, aqueles que anunciam suas idéias para que, sendo aceitas, sintam-se melhores consigo mesmos. Por isso, acho que o proselitismo é, na maioria das vezes, uma expressão da falta de fé, ou melhor, de falta de um fundamento para a fé. A transmissão da mensagem de Cristo não deve ser feita apenas para que nos sintamos melhor, mas sobretudo para mover o descrente para a direção da luz de Deus. Sinceramente, e aí deve ir meu primeiro depoimento pessoal neste blog, não tô nem aí pro caminho que as pessoas escolham desde que ele não me incomode. Os incrédulos que se acertem com Deus! Leciono na catequese porque minha fé em Jesus está firmada na Igreja forte e que seja sempre capaz de anunciar o Evangelho para o maior número de pessoas possível. Parece um paradoxo? Não. Quero dizer que dou catequese para cumprir meu dever cristão. De fato, me alegro em ver meus alunos interessados, questionadores e bem formados. Quero que um dia eles sejam capazes de me dar aulas! Mas quanto à conversões e ensinamentos pessoais, isto é, numa conversa informal, tô nem aí pras convicções do outro. Me basta que haja respeito. É mais ou menos por aí que passa minha noção de ecumenismo, agora falando sério :). Deve haver respeito pela crença das pessoas. Em particular, vivemos num país laico - preferia que ele fosse um país católico, mas enfim... - e a liberdade de culto é garantida. Não cabe atacar publicamente sem ser atacado. Mas... é preciso saber se respeitar de modo que, ao menor sinal de provocação saibamos nos defender e defender àquilo em que cremos, defender a fé Católica!, no meu caso. Pode criticar a filosofia (ou a falta dela) de instituições e, obrigatoriamente, com argumentos sólidos, sob o perigo de incorrermos em discriminação.

Ecumenismo é por aí. Saber comprrender o direito que o outro tem de crer naquilo que quiser, mas sem permitir que nos destruamos a nós mesmo, como fazem alguns estúpidos que acham que o deus do hinduísmo é o mesmo que o nosso. Ou mesmo outros que pensam que Deus está em tudo e não há privilégios entre povos em conhecê-Lo. A tudo isso dá-se o nome de relativismo. Uma maldição de doutrina modernista muito combatida pelo Papa Bento XVI e sobre a qual escreverei um post específico. Adoremos a Cristo! Defendamos a Igreja, mas respeitemos o direito que todos têm de fazer suas escolhas... e que estes não venham me demover daquilo que me é caro. Defender a própria crença não é ser hostil, mas sim sincero consigo mesmo.

Viva a Igreja! Viva a Cristo!

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Catequização

Em vários momentos fico pensando no que escrever aqui no blog. Quero poder escrever pelo menos um pouco todo dia, não só pra que vocês criem o hábito de entrar aqui sabendo que vão encontrar algo novo mas pra que eu também, tendo um compromisso, não desanime. Bom, hoje digamos que eu gostaria de levantar a bola pra que você aí pense (e eu também) a respeito de um tema que é debatido sem o devido rigor, mas que foi de suma importância pra formação cultural do Brasil e, por que não dizer, da América Latina como um todo. A catequização. 


Não quero aqui, num primeiro momento dar minha opinião ou a da Igreja. Saibam apenas que mesmo dentro da Igreja muito ainda se discute sobre como apresentar o Evangelho àqueles que ainda não o conhecem. Em todo caso, devemos lembrar do que nos foi pedido por Cristo, isto é, ir pelo mundo e anunciar o Evangelho. Como fazê-lo de modo a não cometer um genocídio cultural completo? Quais são os limites da particularidade de manifestação de cada povo quando decidido a aceitar a Cristo? Como evangelizar quem está morrendo de fome? Qual o legado da catequização no Brasil e especialmente da Companhia de Jesus (jesuítas)? Saberão meus pontos de vista em breve. Pra quem quiser comentar, escreva o que pensa e certamente vou falar algo também. Senão, falaremos a respeito disso na nossa catequese sábado na Catedral.


Só pra começar... ao contrário do que dizem alguns, dos hereges aos desinformados, creio que a Companhia de Jesus foi a coisa mais importante que aconteceu em toda história do Brasil! (tem as Copas também, mas isso é outras história...).


terça-feira, 10 de novembro de 2009

Divagando sobre o que é boa literatura...

O que faz a boa literatura? Na minha opinião, um bom livro, conto, crônica, o que for, tem sempre duas bases muito bem estruturadas: a forma e a história. Quanto a forma, me refiro ao rigor linguístico, a utilização harmônica de elementos clássicos e contemporâneos. O uso de recursos de linguagem curiosos e que personalize o autor, que faça o leitor ficar preso esperando um nova palavra, uma nova forma de usar uma expressão, uma nova analogia.. enfim! algo que saia do óbvio e corriqueiro mas exalte e exprima toda beleza da língua. Cito exemplo de um autor que fez isso de maneira sublime (talvez o melhor escritor da história do Brasil): Machado de Assis. Ele tinha o que, com o perdão do estrangeirismo, hoje se chama de timing pra contar determinados fatos. Usava o número de linhas adequadas para descrever algo ou, principalmente alguém. Ele é meu escritor favorito na língua portuguesa, sem dúvida alguma. Mas temos gente mais atual, do modernismo, como Euclides da Cunha e Oswald de Andrade. Caras que meio que reinventaram a língua. "Os Sertões" de Euclides da Cunha é classificado por muitos como a verdadeira epopéia do povo brasileiro, algo como é "Os Lusíadas" de Camões para os portugueses. É claro que tem muita porquêra também. Mas outro dia a gente tira pra falar mal dos outros.


Quanto à outra base, ela é provavelmente encarada como a mais importante pela maioria (não é propriamente o meu caso. Gosto de formalismo, apesar de escrever de forma bastante informal aqui :). Contar uma boa história, seja de forma escrita ou oral é uma arte. Quantas vezes algum amigo já virou e disse: "Cara, vi um filme massa essa semana! Deixa eu te contar como era", e no seu íntimo você pensou: "por que não cai um raio na cabeça desse ***" (introduza os "elogios" que quiser. Como sou catequista, mantenho os meus em segredo). Isso ocorre porque a grande maioria das pessoas não tem habilidade suficiente para prender a atenção daquele pra quem conta a história. Na verdade, narrativas de qualquer tipo, incluindo teatro, cinema, música são certamente a parte mais delicada dos processos criativos. Na língua portuguesa temos uma enxurrada de gente, entretanto, que é capaz de dar conta do recado e fazer o sujeito ficar preso à história do começo ao fim. Até o Paulo Coelho (cujos temas dos livros e a visão de mundo eu abomino e acho que todos deveriam abominar) consegue fazer histórias que prendem o leitor. Tem gente que gosta do Manuel Carlos, escritor da atual novela das 8 (socorro!) e por aí vai. Neste quesito, o gosto do leitor conta muito (só pra deixar claro, odeio novelas e especialmente as escritas pelo Manuel Carlos).


Acho que o que me motivou a falar um pouco sobre isso hoje foi o fato de eu ter chegado à conclusão que um certo escritor chamado Geoffrey Blainey não ser capaz de   dar conta do recado. Infelizmente, o que era pra ser o "Uma Breve História do Tempo" da história, "Uma Breve História do Mundo", seu livro que estou lendo, é um porre (de vinho ruim...).


Qualquer hora falo um pouco mais de literatura e de uma forma mais séria, ok? Só lembrando que hoje é dia de São Leão Magno, Papa e Doutor da Igreja, que morreu em 461 em Roma, um dos maiores Papas da história que, entre outras coisas extraordinárias, presidiu o IV Concílio de Calcedônia, no qual foi definida a doutrina católica acerca da natureza dualística de Nosso Senhor Jesus Cristo.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Um pouco de ciência e fé

Ontem falei algo sobre fé e ciência e a respeito das acusações de que a Igreja "joga contra" a razão. É claro que este assunto é inesgotável, mas achei interessante falar rapidamente hoje sobre o outro lado da moeda, isto é, o que muitos daqueles que têm fé pensam da ciência. Desde já, adianto que me refiro essencialmente a posicionamentos pessoais a não institucionais.

Certa vez uma amiga minha, adventista, me perguntou por que eu estudava cosmologia quântica se, sendo cristão, eu não deveria crer na teoria do big bang. Respondi com outra pergunta: "o que tem uma coisa a ver com a outra?". Digo, no que a teoria do big bang contradiz o princípio de que "no princípio criou Deus o céu e a Terra" (Gn 1,1)?  Outro amigo meu, de formação adventista (conheço uma penca de adventista... acho que o que menos conheço são católicos :) me perguntou se, depois do mestrado e no meio do doutorado eu já tinha me tornado ateu. Respondi novamente com uma pergunta: "o que tem uma coisa a ver com outra?". Existe, talvez pela mesma questão histórica que apresentei ontem, uma ligação entre ciência e ateísmo, o que é lamentável. Naturalmente, existiram (e existem) muitos cientistas crentes - seja lá no que for - e cristãos. Podemos citar Kepler, Newton (esse eu espero que esteja no fundo do inferno), Einstein (estes dois últimos não eram cristãos mas criam na existência de algo transcendente que seria responsável pelo bom ordenamento das coisas, pra ser simplista), dentre vários outros.  A questão é que, assim como existe um preconceito por parte dos não crentes, existe também um preconceito por parte daqueles que crêem pois estes acabam enxergando com exagerada desconfiaça os desenvolvimentos científicos - modelos teóricos e constatações observacionais. Entram numa batalha que não podem ganhar por não terem o conhecimento científico e baseiam seus argumentos em declarações apaixonadas, o que nos joga a nós, cristãos, numa perigosa categoria de apaixonados por Jesus e não tementes e crentes nele (a rigor, há seitas cristãs e movimentos em muito lugar sério que realmente encara a religiosidade assim, como uma paixão, o que é lamentável). A Igreja ensina que não se deve combater as ciências naturais. O que a ciência revela como verdade de maneira consistente não deve ser questionado, mas deve iluminar a compreensão do mundo e das relações humanas sobre ele à luz da doutrina da Igreja. Isso quer dizer que a ciência deve ser nossa única guia? Definitivamente não! Citemos um caso, que acho que é mal conduzido pelos dois lados - algumas autoridades da Igreja, além de fiéis leigos de monte, e médicos e biólogos - a respeito da prevenção da AIDS quando se utiliza da camisinha. Algum tempo atrás houve uma autoridade da Igreja (não sei precisar qual, mas era de Bispo pra cima, quiçá um cardeal) que disse que a camisinha não previne a transmissão do vírus. Ora, dados estatísticos atestam que o preservativo previne sim, com grande porcentagem, a transmissão da AIDS durante as relações sexuais. Vemos portanto um membro importante da Igreja (e que a mídia faz questão de dizer que representa a Igreja como um todo, o que é um absurdo) dizer que a ciência está errada, mesmo que o resultado seja conhecido por todos. Por outro lado, há cientistas (sociais sobretudo) que dizem que o incentivo à abstinência é uma violência contra a liberdade (olha ela aí de novo) e portanto não funciona. Quem está com a razão? Ninguém, e os dois ao mesmo tempo! A abordagem do tema é que foi feita de forma equivocada. A Igreja não pode e nem deve (e provavelmente nunca o fará) incentivar o uso de preservativo nas relações sexuais pois isso vai contra a sua doutrina e para nós católicos, a doutrina da Igreja é santa e imaculada e é assim mesmo que devemos tê-la. Ela é perfeita! Entretanto, é isso o que a autoridade eclesiástica deveria ter dito: que a Igreja tem autoridade pra dizer que não se deve usar e que a razão pra isso é doutrinal (de fato, com palavras menos duras, é o que os Bispos em geral dizem, graças a Deus). A Igreja não deve falar aos não cristãos como se ela também fosse neutra. Somos católicos, cristãos. Não somos e nunca seremos neutros! Quanto à parte científica, é óbvio que a abstinência é a ferramenta mais adequada à prevenção da AIDS, quer ela queira ou não. E vai aos sociólogos uma pergunta: vale a pena para manter essa dita "liberdade sexual" entregar-se à prisão de um vírus que leva à morte? Acho que a resposta é óbvia. O que tem em comum as duas declarações? Ambas estão bastante contaminadas por visões apaixonadas e, por este motivo, se afastam da razão.

Outro caso que pode ser citado é o de alguns cientistas cristãos (em geral sem muita envergadura) que tentam conciliar fé e ciência na marra. Coisas do tipo "ah, o indeterminismo da mecânica quântica pode ser uma manifestação da vontade de Deus, que não está ao controle do homem". Deus me livre! mas o tanto de coisa que já ouvi sobre mecânica quântica ligadas à outras áreas chega a ser engraçado. Ou ainda, tentativas exdrúxulas de combater sistemas científicos bem construídos (mas cuja aplicação não tem limites claros e pode inclusive estar recheada de erros) como a teoria da evolução de Darwin. Ou ainda teorias sobre o dilúvio, sobre a abertura do Mar Vermelho e por aí vai. Essas tentativas de buscar a ciência em tudo pode esvaziar as esegeses bíblicas sobre estes assuntos e tirar-nos da categoria de crentes com um sistema filosófico-teológico bem fundamentado para jogar-nos na categoria Indiana Jones - Caçadores da Arca Perdida. Certamente há muito de científico em vários dos relatos bíblicos mas esta deve ser encarada como uma questão secundária. A Bíblia é um livro histórico-teológico e não de ciência natural.

Enfim, essa discussão não se esgota aqui e leva a outra de meu interesse, quer seja: "como fazer apologética com isenção total de paixão?"ou, como defender uma idéia, uma perspectiva, sem paixão? Mas pra isso, é preciso definir o que é paixão...

Um pouco de fé e ciência

Achei interessante compartilhar com quem acompanha este blog uma discussão que tive a partir da dúvida levantada por um crismando (que por sinal é amigo meu desde a graduação no curso de física). Eu falava sobre a fé e apresentava as definições que davam a esta um sentido essencialmente racional. Daí, meu amigo me pediu para falar um pouco a respeito do porquê da Igreja ser acusada de trabalhar, de certo modo, contra a razão, se a definição de fé era racional. Achei a questão excelente. De fato, gosto dessas discussão sobre fé e ciência até mesmo pela minha formação. Bom, a pergunta foi mais ou menos essa e a resposta mais ou menos esta:

De fato, a Igreja caíria num contrasenso se tendesse para longe da razão pois a própria definição de fé, que é um dos pilares de toda  construção da teologia cristã (mais precisamente, a fé em Cristo), é apresentada como "adesão PELA RAZAO das verdades reveladas por Deus e ensinadas pela Igreja" conforme ensinamentos do Apóstulo São Paulo. Possivelmente, essas acusações surgiram séculos atrás. Na idade antiga e média a ciência era feita por filósofos. Sua ocupação se estendia portanto também à teologia (que, conforme mostra São Tomás de Aquino em sua Suma Teológica também é uma ciência). Isso conduziu os desenvolvimentos científicos e teológicos muitas vezes a caminhos imprecisos de modo que a ciência natural deveria se adequar à teologia e não o contrário. Ora, este fato foi responsável por envolver a Igreja num debate que muitas vezes ela não estava preparada para encarar pois, lembremos, a Igreja é infalível em questão de fé e moral mas não científica. Estes debates certamente não pareciam tão superficiais à época como nos parecem hoje e a discussão era e ainda é legítima. Entretanto, fatos como a condenação de Giordano Bruno (que ficou conhecido por defender o modelo de Copérnico, mas não foi propriamente condenado por isso mas por defender idéias de um certo panteísmo Egipcio de forma arrogante contra a Igreja) e  de Galileu (que muito mais culpado foi por suas idéias ligadas ao atomismo que a astronomia) criaram propagandas negativas que até hoje são lembradas de formas muitas vezes levianas. É certo que o tratamento que a Igreja deu aos dois casos levou a isso uma vez que a questão científica ficava muito mais clara nos processos de condenação que as filosóficas e teológicas, estas sim, nas quais a Igreja goza de autoridade plena.

Nos dias atuais, o problema parace ter mudado um pouco de foco. A Igreja ainda é acusada muitas vezes de fazer pouco caso da razão. Mas, no mundo atual o motivo é essencialmente diferente. Vivemos numa sociedade marcada pelo individualismo, humanismo exacerbado, hedonismo e consumismo de tal modo que qualquer regra moral ou mesmo doutrinária é questionada como se estas constituíssem um crime à liberdade. Portanto, dizer que a Igreja não apóia o aborto por não usar a razão não é uma questão mais científico-filosófica, mas essencialmente sociológica e os meios de comunicação, em geral do lado do modernismo sobre o qual falarei um dia, espalham aos quatro ventos que a Igreja é atrasada e irracional, apaixonada e engessada.

Lembremos entretanto que a Igreja, se pensada como empresa, é provavelmente a instituição mais organizada do mundo, com maior número de funcionários e a mais antiga. Lembremos que o corpo doutrinário da Igreja é consistente há muito mais tempo do que a sociedade atual pode pensar e que entre seus "quadros" estiveram pessoas como São Tomás de Aquino, Santo Agostinho e São Bernardo dentre vários outros filósofos de reconhecida importância para a evolução intelectual da humanidade. Ainda, a Igreja é a criadora das universidades, foi quem primeiro discutiu o método científico e possui o maior número de escolas do mundo. E mais, a Igreja ensina que Deus é também razão e não faz sentido, portanto, se afastar dela.

sábado, 7 de novembro de 2009

CATEQUESE


O HOMEM AO ENCONTRO DE DEUS
por Raphael Fracalossi

Neste primeiro encontro veremos como se dá o ímpedo do homem em buscar à Deus e mostraremos que é possível intuir a existência de Deus de maneira racional a partir das cinco vias apresentadas por São Tomás de Aquino o que permite uma primeira racionalização do conceito de fé. A referência principal será a primeira seção do Catecismo da Igreja Católica.



O homem é “capaz” de Deus. Esta expressão deve ser compreendida no sentido de que o homem tem em si inscrito o desejo por Deus que o leva a buscar ou simplesmente questionar Sua criação ou existência. Deus não cessa de atrair o homem. De certa forma, a busca constante da humanidade pela felicidade e por uma verdade que conduza a uma pretensa harmonia são manifestações do desejo que o homem tem por Deus. Só o Criador é a felicidade perfeita (a comnunhão com o Sumo-Bem). Ele é a verdade plena. O aspecto mais sublime da dignidade humana está na vocação à comunhão com Deus já que, se o homem existe é porque Deus o criou e a criatura racional possui em seu íntimo o desejo do Criador. Deus se apresenta a esta vontade do homem por amor pois foi também por amor que Ele o criou.

A busca por Deus leva o ser-humano a se expressar de múltiplas maneiras diferentes e muitas vezes desconexas entre si. Isto marca a sua religiosidade. Portanto, tendo o homem o desejo por Deus e expressando-se através de manifestações ditas religiosas, conclue-se que o homem é um ser religioso.


Percorrendo a vossa cidade e examinando os vossos monumentos sagrados, até encontrei um altar com esta inscrição: Ao Deus desconhecido. Pois bem! O que venerais sem conhecer, é que eu vos anuncio.  O Deus que criou o mundo e tudo quanto nele se encontra, ele, que é o Senhor do céu e da terra, não habita em santuários construídos pela mão do homem nem é servido por mãos humanas, como se precisasse de alguma coisa, ele, que a todos dá a vida, a respiração e tudo mais. Fez a partir de um só homem, todo o gênero humano, para habitar em toda face da terra; e fixou a sequência dos tempos e dos limites para sua habitação, a fim de que os homens procurem a Deus  e se esforcem por encontrá-lo mesmo tateando, embora não se encontre longe de cada um de nós. É nele, realmente, que vivemos, nos movemos e existimos, como também o disseram alguns dos vossos profetas: “Pois nós somos também da sua estirpe”.  [At, 17, 23-28]


Deus criou o homem para que este seja feliz e repleto de amor louvando-O e estando em comunhão permanente com Ele. A criação é portanto um ato de amor. Entretanto, Deus dá ao homem a liberdade de acolher ou não a este chamado (à união com Ele) de modo que esta comunhão pode ser esquecida, ignorada ou até rejeitada explicitamente pelo homem. Este distanciamento da criatura ao criador pode ser teórico - baseado em pressupostos que, tomados, levam o homem a não acreditar ou afastar a idéia da presença de Deus no mundo - e prática - subtendida a partir da despreocupação  ou indiferença religiosa e o apego do homem ao mundo. Estas duas razões para o distanciamento do homem de Deus são manifestamente perigosas. A primeira pode levar o homem a rejeitar voluntariamente o amor e a misericórdia de Deus, isto é, o próprio Espírito Santo, o que constitui o maior dos pecados, para o qual, segundo as Escrituras, não há perdão (o ser-humano rejeita o próprio perdão). A segunda tem como terrível consequência o apego do homem ao mundo atual e o desdém ou indiferença ao mundo após a morte, isto é, à vida eterna, o que o precipita a uma eternidade distante de Deus. Por isso:

Alegre-se o coração dos que buscam ao Senhor! [Sl 105, 3]


Mesmo diante destas manifestações negativas, Deus não cessa de buscar ao homem para que viva e encontre a felicidade. A cruz de Cristo no alto dos templos, a Eucaristia, a bondade dos cristãos, a permanência da Igreja e sua doutrina por 2000 anos são sinais deste constante chamado de Deus. Ao homem cabe o esforço de sua inteligência, a retidão de sua vontade, um “coração reto” e também a humilde acolhida dos testemunhos verdadeiros e ensinamentos dos irmãos em Cristo. 

“porque nos fizestes para vós e o nosso coração não descansa enquanto não repousa em Vós” [Santo Agostinho, Confissões I, 1, 1]

Chamado a conhecer e amar a Deus, tocado por Sua graça, o homem descobre certas “vias” que constituem provas da existência do Altíssimo
. Foi São Tomás de Aquino quem melhor sistematizou estas vias em cinco pontos fundamentais em uma das mais importantes obras da história da Igreja, a Suma Teológica, de sua autoria. Deve-se ter em mente contudo, que ele examina o que se dá nas “coisas criadas” para, através delas, compreender que existe um Deus que as criou e lhes deu qualidades visíveis, reflexos de suas qualidades invisíveis e em grau infinito.

  1. A prova do movimento: Todo movimento depende de um movimento anterior. Ora, isso leva à necessidade de ter havido infinitamente no passado um movimento primeiro, o moto primus, que não dependesse de nenhum movimento anterior. Este movimento primeiro só pode ser uma entidade que seja ato puro, isto é, portador de todas as perfeições e não advindo de potência passiva alguma, ou seja, cuja existência independa de qualquer movimento ou causa anterior. Esta entidade possui atributos apenas considerados na divindade, portanto é Deus.

Vê-se portanto o porquê de Deus ter dito acerca de si próprio, quando lhe foi perguntado quem era, a resposta: “Eu sou”. Isto é, pleno de perfeições e imutável. Estas palavras são expressas por Cristo ao discutir com os fariseus quando disse 

Antes que Abraão fosse, eu sou [Jo VIII,58]


Deus é portanto aquele que é imutável. Além disso, é verdade plena, donde se conclue que a verdade não muda. O anúncio da verdade para sua acolhida pela fé, o dogma, não muda. O bem é sempre o mesmo.
  1. Causalidade eficiente: Esta via é uma expressão diferenciada da primeira. Toda causa tem um efeito. Se um efeito não depende de um conjunto de causas, ele não pode existir, o que é um absurdo pois as coisas todas são efeitos de algo anterior. Portanto, existem causa e efeito nesta ordem. Toda causa é um efeito de uma causa anterior. A causa de todas as causas não depende de causa alguma, portanto simplesmente é, o que se atribui a Deus.

  1. Prova da incontingência: Algo que não existe não pode passar a existir por si mesmo. Deste modo, se houve um passado em que nada existisse, hoje ainda nada existiria, o que é um absurdo pois sabemos, pelo menos de nossa existência pois podemos nos questionar a respeito dela. É portanto preciso que haja um ente que tenha sempre existido para dar existência aos entes contingentes. A existência deve portanto fazer parte da essência deste ente de modo que exista eternamente - ad eternum. A eternidade nesta perspectiva só pode ser atribuída a Deus. Portanto, Deus existe.

  1. Graus de perfeição dos entes: Pode-se estabelecer padrões para as perfeições (qualidades) de tudo o que existe: bondade, beleza, verdade, etc. Todo padrão deve ser ou então proceder de um valor absoluto em que estas perfeições encontrem sua manifestação extrema. Estes valores absolutos devem existir para que haja um padrão também perfeito segundo o qual é possível atribuir valores ao restante do universo. A expressão máxima da perfeição só pode ser encontrada em Deus. Logo, Deus existe.

  1. O governo do mundo: As coisas irracionais sempre dependem de uma conduta que as leve a um fim. Nada irracional pode impor-se uma conduta que a leve a si própria. Ao ser inteligente que dirige todas as coisas naturais a seu fim próprio chamamos de Deus. Este comportamento de coisas irracionais seguindo um conjunto de leis é observado na natureza, donde se conclui que Deus existe.


A fé portanto é racional. De fato, a Igreja ensina, seguindo a São Paulo, que a fé é a adesão pela razão das verdades reveladas por Deus e ensinadas pela Igreja. Deve haver quem anuncie a verdade de forma perfeita pois Deus, em sua perfeição, quer fazer-se conhecer e dar ao homem a opção de estar em comunhão com Ele. Este anúncio perfeito é dado pela Igreja. Esta, por ser a fiel depositária da verdade é infalível, na pessoa do Sumo Pontífice em comunhão com todos os bispos, em questões de fé e moral para sempre, conforme as promessas de Cristo, de que estará com Ela até o fim dos dias.

As más inclinações do homem, desde o pecado original,  o levam para distante das razões que apontam para Deus. Mas, Ele dá o tesouro de fazer-se conhecer, ao que chamamos de revelação, o que discutiremos em breve.

Portanto, racionalmente podemos inferir que Deus existe e nós O expressamos segundo nossa capacidade a partir das perfeições de sua criação, uma pequena parcela de sua própria perfeição e grandeza!


Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!!





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Olá a todos. É com prazer que inicio um projeto antigo que tinha. Neste espaço o leitor encontrará temas relacionados à Igreja Católica, às ciências naturais (especialmente a física) dentre outros assuntos de meu interesse ou que sejam sugeridos por você leitor. Espero que gostem! Vocês ainda encontrarão aqui os temas de minhas aulas com os respectivos resumos - baseados no Catecismo da Igreja Católica.