O HOMEM AO ENCONTRO DE DEUS
por Raphael Fracalossi
Neste primeiro encontro veremos como se dá o ímpedo do homem em buscar à Deus e mostraremos que é possível intuir a existência de Deus de maneira racional a partir das cinco vias apresentadas por São Tomás de Aquino o que permite uma primeira racionalização do conceito de fé. A referência principal será a primeira seção do Catecismo da Igreja Católica.
O homem é “capaz” de Deus. Esta expressão deve ser compreendida no sentido de que o homem tem em si inscrito o desejo por Deus que o leva a buscar ou simplesmente questionar Sua criação ou existência. Deus não cessa de atrair o homem. De certa forma, a busca constante da humanidade pela felicidade e por uma verdade que conduza a uma pretensa harmonia são manifestações do desejo que o homem tem por Deus. Só o Criador é a felicidade perfeita (a comnunhão com o Sumo-Bem). Ele é a verdade plena. O aspecto mais sublime da dignidade humana está na vocação à comunhão com Deus já que, se o homem existe é porque Deus o criou e a criatura racional possui em seu íntimo o desejo do Criador. Deus se apresenta a esta vontade do homem por amor pois foi também por amor que Ele o criou.
A busca por Deus leva o ser-humano a se expressar de múltiplas maneiras diferentes e muitas vezes desconexas entre si. Isto marca a sua religiosidade. Portanto, tendo o homem o desejo por Deus e expressando-se através de manifestações ditas religiosas, conclue-se que o homem é um ser religioso.
Percorrendo a vossa cidade e examinando os vossos monumentos sagrados, até encontrei um altar com esta inscrição: Ao Deus desconhecido. Pois bem! O que venerais sem conhecer, é que eu vos anuncio. O Deus que criou o mundo e tudo quanto nele se encontra, ele, que é o Senhor do céu e da terra, não habita em santuários construídos pela mão do homem nem é servido por mãos humanas, como se precisasse de alguma coisa, ele, que a todos dá a vida, a respiração e tudo mais. Fez a partir de um só homem, todo o gênero humano, para habitar em toda face da terra; e fixou a sequência dos tempos e dos limites para sua habitação, a fim de que os homens procurem a Deus e se esforcem por encontrá-lo mesmo tateando, embora não se encontre longe de cada um de nós. É nele, realmente, que vivemos, nos movemos e existimos, como também o disseram alguns dos vossos profetas: “Pois nós somos também da sua estirpe”. [At, 17, 23-28]
Deus criou o homem para que este seja feliz e repleto de amor louvando-O e estando em comunhão permanente com Ele. A criação é portanto um ato de amor. Entretanto, Deus dá ao homem a liberdade de acolher ou não a este chamado (à união com Ele) de modo que esta comunhão pode ser esquecida, ignorada ou até rejeitada explicitamente pelo homem. Este distanciamento da criatura ao criador pode ser teórico - baseado em pressupostos que, tomados, levam o homem a não acreditar ou afastar a idéia da presença de Deus no mundo - e prática - subtendida a partir da despreocupação ou indiferença religiosa e o apego do homem ao mundo. Estas duas razões para o distanciamento do homem de Deus são manifestamente perigosas. A primeira pode levar o homem a rejeitar voluntariamente o amor e a misericórdia de Deus, isto é, o próprio Espírito Santo, o que constitui o maior dos pecados, para o qual, segundo as Escrituras, não há perdão (o ser-humano rejeita o próprio perdão). A segunda tem como terrível consequência o apego do homem ao mundo atual e o desdém ou indiferença ao mundo após a morte, isto é, à vida eterna, o que o precipita a uma eternidade distante de Deus. Por isso:
Alegre-se o coração dos que buscam ao Senhor! [Sl 105, 3]
Mesmo diante destas manifestações negativas, Deus não cessa de buscar ao homem para que viva e encontre a felicidade. A cruz de Cristo no alto dos templos, a Eucaristia, a bondade dos cristãos, a permanência da Igreja e sua doutrina por 2000 anos são sinais deste constante chamado de Deus. Ao homem cabe o esforço de sua inteligência, a retidão de sua vontade, um “coração reto” e também a humilde acolhida dos testemunhos verdadeiros e ensinamentos dos irmãos em Cristo.
“porque nos fizestes para vós e o nosso coração não descansa enquanto não repousa em Vós” [Santo Agostinho, Confissões I, 1, 1]
Chamado a conhecer e amar a Deus, tocado por Sua graça, o homem descobre certas “vias” que constituem provas da existência do Altíssimo
. Foi São Tomás de Aquino quem melhor sistematizou estas vias em cinco pontos fundamentais em uma das mais importantes obras da história da Igreja, a Suma Teológica, de sua autoria. Deve-se ter em mente contudo, que ele examina o que se dá nas “coisas criadas” para, através delas, compreender que existe um Deus que as criou e lhes deu qualidades visíveis, reflexos de suas qualidades invisíveis e em grau infinito.
- A prova do movimento: Todo movimento depende de um movimento anterior. Ora, isso leva à necessidade de ter havido infinitamente no passado um movimento primeiro, o moto primus, que não dependesse de nenhum movimento anterior. Este movimento primeiro só pode ser uma entidade que seja ato puro, isto é, portador de todas as perfeições e não advindo de potência passiva alguma, ou seja, cuja existência independa de qualquer movimento ou causa anterior. Esta entidade possui atributos apenas considerados na divindade, portanto é Deus.
Vê-se portanto o porquê de Deus ter dito acerca de si próprio, quando lhe foi perguntado quem era, a resposta: “Eu sou”. Isto é, pleno de perfeições e imutável. Estas palavras são expressas por Cristo ao discutir com os fariseus quando disse
Antes que Abraão fosse, eu sou [Jo VIII,58]
Deus é portanto aquele que é imutável. Além disso, é verdade plena, donde se conclue que a verdade não muda. O anúncio da verdade para sua acolhida pela fé, o dogma, não muda. O bem é sempre o mesmo.
- Causalidade eficiente: Esta via é uma expressão diferenciada da primeira. Toda causa tem um efeito. Se um efeito não depende de um conjunto de causas, ele não pode existir, o que é um absurdo pois as coisas todas são efeitos de algo anterior. Portanto, existem causa e efeito nesta ordem. Toda causa é um efeito de uma causa anterior. A causa de todas as causas não depende de causa alguma, portanto simplesmente é, o que se atribui a Deus.
- Prova da incontingência: Algo que não existe não pode passar a existir por si mesmo. Deste modo, se houve um passado em que nada existisse, hoje ainda nada existiria, o que é um absurdo pois sabemos, pelo menos de nossa existência pois podemos nos questionar a respeito dela. É portanto preciso que haja um ente que tenha sempre existido para dar existência aos entes contingentes. A existência deve portanto fazer parte da essência deste ente de modo que exista eternamente - ad eternum. A eternidade nesta perspectiva só pode ser atribuída a Deus. Portanto, Deus existe.
- Graus de perfeição dos entes: Pode-se estabelecer padrões para as perfeições (qualidades) de tudo o que existe: bondade, beleza, verdade, etc. Todo padrão deve ser ou então proceder de um valor absoluto em que estas perfeições encontrem sua manifestação extrema. Estes valores absolutos devem existir para que haja um padrão também perfeito segundo o qual é possível atribuir valores ao restante do universo. A expressão máxima da perfeição só pode ser encontrada em Deus. Logo, Deus existe.
- O governo do mundo: As coisas irracionais sempre dependem de uma conduta que as leve a um fim. Nada irracional pode impor-se uma conduta que a leve a si própria. Ao ser inteligente que dirige todas as coisas naturais a seu fim próprio chamamos de Deus. Este comportamento de coisas irracionais seguindo um conjunto de leis é observado na natureza, donde se conclui que Deus existe.
A fé portanto é racional. De fato, a Igreja ensina, seguindo a São Paulo, que a fé é a adesão pela razão das verdades reveladas por Deus e ensinadas pela Igreja. Deve haver quem anuncie a verdade de forma perfeita pois Deus, em sua perfeição, quer fazer-se conhecer e dar ao homem a opção de estar em comunhão com Ele. Este anúncio perfeito é dado pela Igreja. Esta, por ser a fiel depositária da verdade é infalível, na pessoa do Sumo Pontífice em comunhão com todos os bispos, em questões de fé e moral para sempre, conforme as promessas de Cristo, de que estará com Ela até o fim dos dias.
As más inclinações do homem, desde o pecado original, o levam para distante das razões que apontam para Deus. Mas, Ele dá o tesouro de fazer-se conhecer, ao que chamamos de revelação, o que discutiremos em breve.
Portanto, racionalmente podemos inferir que Deus existe e nós O expressamos segundo nossa capacidade a partir das perfeições de sua criação, uma pequena parcela de sua própria perfeição e grandeza!
Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!!
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