domingo, 22 de novembro de 2009

CATEQUESE

A Transmissão da Revelação Divina 
Parte I: A Tradição Apostólica
por Raphael Fracalossi

Neste terceiro encontro procuraremos compreender o papel da Tradição Apostólica na transmissão da Revelação Divina. Como de costume, o texto básico é o Catecismo da Igreja Católica.



Conforme vimos, Deus quer fazer-se conhecer à humanidade para que esta o adore e seja plena Nele. Conhecer a Deus ou ter acesso à sua palavra é estar diante da verdade plena e imutável pois o próprio Deus é pleno na perfeição e imutável em si mesmo. Portanto, sendo Deus perfeito e imutável, espera-se que o mundo deva receber sua revelação também de forma plena e imutável. Está explícito como uma “qualidade” da perfeição de que esta se faça conhecer de forma legítima e sem ambiguidade. Portanto, deve haver apenas uma única revelação em conteúdo - Deus não pode revelar-se diferente em si a pessoas diferentes. Vimos já os diversos estágios em que esta revelação se deu até sua plenitude em Jesus Cristo. Veremos agora os métodos em que esta relação nos é comunicada: as Sagradas Escrituras e a Tradição Apostólica, sobre a qual nos debruçaremos hoje.


Deus dispôs com suma benignidade que aquelas coisas que revelara para a salvação de todos os povos permanecessem sempre íntegras e fossem transmitidas a todas as gerações.  [Constituição dogmática Dei Verbum]


Cristo Senhor, em quem se consuma toda revelação do Sumo Deus, ordenou aos apóstulos que o Evangelho, prometido antes pelos profetas, completado por ele e por sua própria boca promulgado, fosse por eles pregada a todos os homens como fonte de toda verdade salvítica e de toda disciplina de costumes, comunicando-lhes os dons divinos.  [Constituição dogmática Dei Verbum]


A transmissão do Evangelho se deu de maneira oral, pela pregação dos apóstulos que receberam os ensinamentos diretamente de Cristo ou aprenderam das sugestões do Espírito Santo, muitas coisas das quais registraram por escrito.

Para que o Evangelho e os ensinamentos permanecessem inalterados, os apóstulos deixaram como seus sucessores os Bispos. Esta sucessão deve manter-se viva até o fim dos tempos.


a Igreja, em sua doutrina, vida e culto, perpetua e transmite a todas as gerações  tudo o que ela é, tudo o que crê.  [Constituição dogmática Dei Verbum]



O ensinamento dos Santos Padres testemunha a presença vivificante desta tradição, cujas riquezas se transfundem na praxe e na vida da Igreja crente e orante.  [Constituição Dogmáti ca Dei Verbum]


Portanto a Igreja é a fiel trasmissora da mensagem divina ao homem, continuamente inspirada pelo Espírito Santo e, por este motivo, isenta de erro em matéria de fé e moral.

Note que, por terem a mesma fonte segura, a Tradição Apostólica e as Escrituras estão estreitamente unidas. Isso é tanto mais visível quando se observa que quem compilou o atual canôn das Escrituras e a traduziu inicialmente para o grego e o latin foi a Igreja com a autoridade dada por Cristo, com constante auxílio do Espírito Santo. Disso, se não há a Tradição Apostólica conferida pelo próprio Deus em Cristo, não é possível afirmar serem as Sagradas Escrituras uma fonte segura, isenta de erros.

A Sagrada Tradição transmite integralmente aos sucessores dos apóstulos a palavra de Deus confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos apóstulos para que, sob a luz do Espírito de verdade, eles, por sua pregação, fielmente a conservem, exponham e difundam.

Portanto, as certezas da Igreja derivam da Tradição e das Escrituras de modo que ambas devem ser igualmente veneradas. Em vista disso, qualquer outra tradição, dita eclesial local deve estar conforme à Tradição Apostólica, sob o guia do Magistério da Igreja.

O depósito da fé (depositum fidei) contido nas Escrituras e na Tradição é confiado à totalidade dos fiéis. Então, Bispos, Cardeais, fiéis leigos, Diáconos, etc. professam a mesma fé. Entretanto, o Magistério da Igreja é o único autorizado a interpretar as Escrituras. Afinal, como Deus é único e sua Revelação também é única, o anúncio deve também ser único e a partir de uma autoridade. Esta foi divinamente dada à Igreja por Cristo sobre Pedro, príncipe dos Apóstolos, Bispo de Roma, que transmitiu seu legado a seus secessores.


Bem aventurado és Simão Barjona, porque não foi a carne e o sangue que a ti revelou, mas sim meu Pai que está no céus, e eu digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão sobre ela. E eu te darei as chaves do reino dos céus, e tudo que ligares na terra será ligado também nos céus. [Mt XVI, 16-19s]


A assistência constante do Espírito Santo e a promessa de Cristo de que permanece com os seus “todos os dias até a consumação dos séculos” [Mt XXVIII, 20] garante a inerrância da Igreja em sua doutrina. A autoridade da Igreja se manifesta tanto mais fortemente na definição dos dogmas. Estes são verdades de fé, anúncio de verdades contidas na Revelação ou em conexão íntima com esta verdade. São princípios que devem ser obrigatoriamente aceitos pelos fiéis e guias no caminho que leva a Deus. São exemplos de dogmas a Santíssima Trindade, a Imaculada Conceição de Maria, a Infalibilidade Papal, entre outros.

Sob uma perspectiva não-transcedental, a Igreja é o conjunto do povo de Deus. Este povo professa uma única fé e deve anunciá-la sempre desde o pequenino fiel leigo até a mais alta autoridade eclesiástica mas sempre em concordância com a Tradição Apostólica, com as Escrituras e enfim, com o Magistério da Igreja.


Fica, portanto, claro que segundo o sapientíssimo plano divino, a Sagrada Tradição, a Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja estão de tal modo entrelaçados e unidos que um  não tem consciência  sem os outros, e que juntos, cada qual a seu modo, sob ação do mesmo Espírito Santo, contribuem eficazmente para a salvação das almas. [Constituição Dogmática Dei Verbum]



Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

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