Blog sobre assuntos de meu interesse: política, filosofia e teologia na visão Católica, física e eventualmente um pouco de cultura pop.
segunda-feira, 25 de março de 2013
Felicidade X virtude
Tive uma conversa com um grande amigo que me fez refletir com respeito àquilo que mais obstinadamente temos buscado. Certamente a opinião da maioria será a de que não há sentido uma vida em que a felicidade não seja um fim último e razão de ser de nossas ações. Evidentemente, esta felicidade plena deveria vir a reboque de sua conquista sem atentar contra a própria consciência moral uma vez que a inquietude da busca pela felicidade a qualquer custo não resultará em felicidade plena, mas em momentos felizes e confortáveis, o que não compõe a estrutura de uma vida inteira. Bem, isto parece razoável a princípio, mas partamos de uma situação hipotética (a qual foi suscitada por meu amigo Heron na conversa que mencionei no início. Ele assistiu o ocorrido num programa de tv, o BBB 13): duas pessoas estão num jogo qualquer, cujas regras eram precisamente conhecidas, no qual nenhuma das duas foi obrigada a participar e o prêmio é um automóvel maravilhoso. Agora, imagine que a disputa se dê entre um homem e uma mulher. A prova consiste em submeter cada um dos participantes a situações que provem sua resistência mas sem apelo às suas forças físicas. Os participantes portanto serão obrigados a desistir apenas por eventuais necessidades fisiológicas, como urinar, defecar, comer, beber água, etc. Bom, sabemos que para um homem aparentemente é mais fácil lidar, por exemplo, com a necessidade de urinar do que para uma mulher, por questões meramente anatômicas (na prova em questão, nada impediria o concorrente masculino de resolver o problema por ali mesmo). Ora, neste caso, o homem está em vantagem. A mulher então sugere: "assim que um de nós dois tiver a necessidade de urinar, o jogo deve parar e esta pessoa deve desistir; porque para que eu o faça, eu necessariamente tenho que abandonar a disputa, enquanto você poderia continuar, o que me parece injusto". O homem responde: "não, o jogo é este e as regras foram claras!". Entretanto, após refletir por algum tempo o homem diz a mulher: "sua condição, neste caso, de desvantagem, me levou a tomar uma decisão. Eu abandono o jogo e você fica com o carro pois isto me parece correto". O homem então desiste, a mulher ganha o carro e o comentarista diz que a atitude do rapaz foi eticamente coerente. É este o ponto que eu desejo analisar. Vamos ao fato em si: o homem desistiu do prêmio para cedê-lo a outra pessoa sob a justificativa de que a disputa não se dava em igualdade de condições. Dizer que a conduta do concorrente do sexo masculino foi ética implica por consequência qualificar que, numa disputa qualquer, a vitória, em nome da ética repita-se, deve sempre ser atribuída ao lado que ficou mais fraco ou fragilizado, o que contradiz o próprio conceito de disputa evidentemente. Acrescente-se ainda que em nenhum momento discutiu-se se o maravilhoso automóvel (igual ao meu por sinal :) seria mais necessário ou útil à concorrente feminina, o que de fato justificaria a saída do homem da competição e permitiria atribuir à sua atitude a qualidade da nobreza. De fato, o prêmio aparentemente teria a mesma utilidade e seria de mesma necessidade para os dois. Portanto, a atitude não teve nada de nobre também. O último motivo lícito capaz de justificar a ação do rapaz seria premiar sua colega de competição por suas virtudes (ainda que sejam físicas, mas virtudes). No caso da virtude física, o motivo da desistência tem um fim último muito claro: comer a colega, o que se não é um motivo nobre, pelo menos ainda é um motivo. No caso de se tratar de premiar um comportamento virtuoso e exemplar, a justiça da ação seria indiscutível e a discussão não encontraria razão de ser. Entretanto, e mais uma vez, aparentemente estes não foram os motivos. O que restou então? A primeira tese, a qual implica que o conceito de disputa deve ser abolido. Eu concordaria com a atitude do rapaz caso o prêmio em disputa fosse um prato de comida numa prova em que estão todos morrendo de fome. Opa! Voltamos para a nobreza. Mas não era disso que se tratava... o fato é que, o sujeito tinha total e pleno direito de ceder a vitória à concorrente, isto não está em discussão. Entretanto, quando o apresentador disse que a atitude do rapaz era eticamente consistente, ele acabou de confundir o conceito de ética com o de bom-mocismo, o que é absurdo e execrável. Defino como bom-mocismo qualquer ação que vise classificar o agente como "bonzinho" isto é, que permite que aqueles que o rodeiam o qualifiquem com a virtude da bondade e do desapego de si mesmo pelos outros e pela natureza. Não vou entrar no mérito do porquê do bom-mocismo ser condenável. Isto deixarei para ocasiões futuras, mas de pronto afirmo que o bom-mocismo traz consigo um tipo de discurso que limita a expressão daquele que o profere e incita o ouvinte à covardia de denunciar com o devido rigor tudo quanto há de condenável numa sociedade. Volto a dizer: não importa o motivo que levou o rapaz a tomar a atitude que tomou. É direito dele! Condeno a atribuição, por parte do apresentador, de atitude ética à que foi tomada, a qual possui fortes aromas bom-mocistas, e com isso a propagação da noção implícita que se deve buscar a felicidade e o sorriso de outro antes de premiar suas virtudes. Para o bom-moço, mostrar que é capaz de arrancar o sorriso de alguém é notadamente mais importante do que premiar as virtudes, sobretudo se elas se constituem em exceção diante do grupo social ao qual pertence. Para o bom-moço, a coletividade está acima da liberdade individual, o que nos carrega para a pior das justificativas de legitimidade: a justificativa do número, da maioria, independente das virtudes trazidas por esta mesma maioria. No fim, para o bom-moço é mais importante a busca pela felicidade (ainda que do coletivo) do que das virtudes individuais... muito mais fácil ser burro acompanhado que burro sozinho...
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