segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Um pouco de fé e ciência

Achei interessante compartilhar com quem acompanha este blog uma discussão que tive a partir da dúvida levantada por um crismando (que por sinal é amigo meu desde a graduação no curso de física). Eu falava sobre a fé e apresentava as definições que davam a esta um sentido essencialmente racional. Daí, meu amigo me pediu para falar um pouco a respeito do porquê da Igreja ser acusada de trabalhar, de certo modo, contra a razão, se a definição de fé era racional. Achei a questão excelente. De fato, gosto dessas discussão sobre fé e ciência até mesmo pela minha formação. Bom, a pergunta foi mais ou menos essa e a resposta mais ou menos esta:

De fato, a Igreja caíria num contrasenso se tendesse para longe da razão pois a própria definição de fé, que é um dos pilares de toda  construção da teologia cristã (mais precisamente, a fé em Cristo), é apresentada como "adesão PELA RAZAO das verdades reveladas por Deus e ensinadas pela Igreja" conforme ensinamentos do Apóstulo São Paulo. Possivelmente, essas acusações surgiram séculos atrás. Na idade antiga e média a ciência era feita por filósofos. Sua ocupação se estendia portanto também à teologia (que, conforme mostra São Tomás de Aquino em sua Suma Teológica também é uma ciência). Isso conduziu os desenvolvimentos científicos e teológicos muitas vezes a caminhos imprecisos de modo que a ciência natural deveria se adequar à teologia e não o contrário. Ora, este fato foi responsável por envolver a Igreja num debate que muitas vezes ela não estava preparada para encarar pois, lembremos, a Igreja é infalível em questão de fé e moral mas não científica. Estes debates certamente não pareciam tão superficiais à época como nos parecem hoje e a discussão era e ainda é legítima. Entretanto, fatos como a condenação de Giordano Bruno (que ficou conhecido por defender o modelo de Copérnico, mas não foi propriamente condenado por isso mas por defender idéias de um certo panteísmo Egipcio de forma arrogante contra a Igreja) e  de Galileu (que muito mais culpado foi por suas idéias ligadas ao atomismo que a astronomia) criaram propagandas negativas que até hoje são lembradas de formas muitas vezes levianas. É certo que o tratamento que a Igreja deu aos dois casos levou a isso uma vez que a questão científica ficava muito mais clara nos processos de condenação que as filosóficas e teológicas, estas sim, nas quais a Igreja goza de autoridade plena.

Nos dias atuais, o problema parace ter mudado um pouco de foco. A Igreja ainda é acusada muitas vezes de fazer pouco caso da razão. Mas, no mundo atual o motivo é essencialmente diferente. Vivemos numa sociedade marcada pelo individualismo, humanismo exacerbado, hedonismo e consumismo de tal modo que qualquer regra moral ou mesmo doutrinária é questionada como se estas constituíssem um crime à liberdade. Portanto, dizer que a Igreja não apóia o aborto por não usar a razão não é uma questão mais científico-filosófica, mas essencialmente sociológica e os meios de comunicação, em geral do lado do modernismo sobre o qual falarei um dia, espalham aos quatro ventos que a Igreja é atrasada e irracional, apaixonada e engessada.

Lembremos entretanto que a Igreja, se pensada como empresa, é provavelmente a instituição mais organizada do mundo, com maior número de funcionários e a mais antiga. Lembremos que o corpo doutrinário da Igreja é consistente há muito mais tempo do que a sociedade atual pode pensar e que entre seus "quadros" estiveram pessoas como São Tomás de Aquino, Santo Agostinho e São Bernardo dentre vários outros filósofos de reconhecida importância para a evolução intelectual da humanidade. Ainda, a Igreja é a criadora das universidades, foi quem primeiro discutiu o método científico e possui o maior número de escolas do mundo. E mais, a Igreja ensina que Deus é também razão e não faz sentido, portanto, se afastar dela.

4 comentários:

  1. Olá, sobre "grandes nomes da razão" na Igreja descobri recentemente que 25 crateras na lua foram descobertas por padres jesusitas... Que a invenção das ciências econômicias se deu por padres, assim como a ciência que estuda terremotos e o solo!! E que nenhuma instituição injetou mais dinheiro na astronomia que a Igreja. Que 1/20 dos maiores matematicos de TODOS OS TEMPOS foram jesuitas!! Só pra citar alguns exemplos pois nao quero me alongar hein. Richelisson

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  2. Ah, tem outra... o cara que primeiro propôs a teoria do big bang também era padre e tem seu nome da métrica que descreve um universo homogêneo e isotrópico, o Lemmaître.

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  3. Em apoio ao Fracalossi, gostaria de dizer que:

    O Cristianismo é um sistema filosófico completo que procede de dedução rigorosa de um único axioma para milhares de teoremas. Cada uma das partes desse sistema filosófico - epistemologia (conhecimento), soteriologia (salvação), metafísica (realidade), ética (conduta) e política (governo) - estão arranjadas em um sistema lógico. Em tal sistema, onde as proposições são logicamente dependentes de outras proposições e logicamente implicam nelas, cada parte reforça mutuamente as outras. Juntas elas constroem uma fortaleza inexpugnável que pode resistir e derrotar seja o que for que as outras filosofias e religiões possam dizer.

    Sendo assim, o Cristianismo é uma visão total das coisas consideradas juntas. Ele enfrenta todas as filosofias não-cristas no campo de batalha intelectual, demostrando que as mesmas se arrogam racionais quando na verdade partem de pressupostos irracionais. Ele é o único a oferecer uma teoria consistente do conhecimento, um caminho para o Céu, uma refutação racional da ciência naturalista, uma teoria do mundo, um sistema de ética coerente e prático, e os princípios requeridos para a liberdade e a justiça política.

    Para encerrar gostaria de observar que,

    A afirmação de que a Igreja, e portanto o Cristianismo, trabalha, de certo modo contra a razão é irracional. A afirmação acima (argumento) deve ser redutível a um silogismo com uma conclusão que contradiz o Cristianismo. Isto é, ela deve conter premissas verdadeiras e necessariamente levar a uma conclusão como: "Portanto, o Cristianismo é irracional". Nesse caso perguntamos, quais são as premissas verdadeiras? Qual é o processo exato de raciocínio que necessariamente leva à conclusão de que o Cristianismo é irracional? O incrédulo pensa que é racional, quando na verdade suas afirmações carecem de uma justificativa racional.

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  4. Nota: Uma das figuras mais notáveis e mais esquecidas da história da ciência européia moderna foi Roger Boscovich. Jesuíta servo-croata, ao mesmo tempo poeta e conselheiro do papa para questões de arquitetura, diplomata cosmopolita e negociante, homem do mundo e teólogo, confidente de governantes e membro da Royal Society, mas acima de tudo um matemático e cientista. Boscovich foi um newtoniano apaixonado e o formulador da primeira concepção científica de uma Teoria do Tudo. Sua obra mais famosa, Theoria Philosophiae Naturalis, foi publicada pela primeira vez em Viena em 1758. Teve várias reimpressões, que culminaram na edição veneziana revista e aumentada de 1763. Sua influência foi abrangente e profunda, especialmente na Grã-Bretanha, onde Faraday, Maxwell e Kelvin se declararam devedores de sua inspiração.

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